Pesquisa faz o plástico do século XXI
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quarta-feira, 26 de fevereiro de 1997
Mariluce Moura/Fapesp Especial para AE 
ReproduçãoPesquisa com materiais carbonosos avançados vai beneficiar vários setores da indústria, desde o automobilismo até a aeronáuticaO Brasil deve conseguir o domínio tecnológico na produção de materiais carbonosos avançados, produtos de alta resistência e baixo peso, como a fibra de carbono. Um passo importante para esta conquista foi a solicitação ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial, INPI, da patente de novo processo de obtenção de piches de alcatrão de hulha de melhor qualidade pela Usiminas-Usina Siderúrgica de Minas Gerais. Esse piche é rico em carbono e, depois de processado, transforma-se na matéria-prima para a fabricação dos materiais carbonosos.
Hoje, o mercado internacional visível desses novos produtos está na faixa de US$1 bilhão de dólares, mas esse valor seria muito mais elevado se fosse computada a produção dos fabricantes de carbonosos avançados para uso próprio, caso da NASA, a agência espacial norte-americana. E quem tem as patentes e as fórmulas pede muito dinheiro por elas ou, simplesmente, não as fornece.
O projeto de pesquisa para atingir tão almejada tecnologia iniciou-se em 1994, com um grupo de pesquisadores coordenado pelo professor Carlos Alberto Luengo, do Departamento de Física Aplicada da Unicamp, com apoio da Fapesp. Os recursos para três anos foram da ordem de R$ 1 milhão, dos quais R$ 265 mil aplicados pela Fapesp, US$ 400 mil pela Usiminas, R$ 100 mil da Petrobrás e o restante proveniente das demais instituições participantes: o CTA - Centro Tecnológico da Aeronáutica, o ITA - Instituto Tecnológico da Aeronáutica e a Unicamp.
AlcatrãoA novidade da patente é a utilização de óleos extraídos do alcatrão - um subproduto da coqueificação (cozimento) da hulha (carvão siderúrgico) - para diluir o piche e obter ganho de qualidade do produto. Esse processo garante um novo aproveitamento para o alcatrão, um material danoso ao ambiente e cancerígeno, normalmente usado na fabricação de outros produtos químicos.
Na sequência da pesquisa, o objetivo principal é obter 100% de pureza no piche mesofásico, situação ideal para a fabricação dos novos materiais. Os pesquisadores já conseguiram um índice de 75%. Com a complementação dessa fase, a Usiminas e possivelmente mais outras duas siderúrgicas brasileiras - a Companhia Siderúrgica Nacional e a Companhia Siderúrgica de Tubarão - terão condições de fornecer o piche mesofásico para as indústrias instaladas no Brasil. Então, será possível fabricar, a preços mais reduzidos, a fibra de carbono, que tem um mercado em alta expansão em vários setores industriais: asas de avião e outros produtos aeronáuticos, raquetes de tênis, jet ski, bicicletas, varas de pescar e nas carrocerias de carros de Fórmula 1. Prevê-se a fabricação de piscinas, pára-choques de carros e tanques de armazenamento dos caminhões transportadores de combustível, o que diminuiria, em muito, o peso desses veículos.
Por ser um material condutivo, a fibra de carbono evita a interferência de ondas eletromagnéticas, o que pode facilitar o seu uso em novos modelos de carros, que cada vez mais utilizam sensíveis microprocessadores, como injeções eletrônicas e instrumentos digitais. No Japão, já se fabrica paredes carbonosas, numa mistura de cimento e fibra de carbono que elimina o uso de vergalhões de ferro na estrutura. Com isso, as paredes ficam mais finas e compactas, além do ambiente ficar protegido contra ondas eletromagnéticas, afirma Choyu Otani, do Centro Tecnológico da Aeronáutica, CTA. A fibra de carbono e outros materiais carbonosos são o plástico de século 21, avalia o coordenador Luengo.
Além da fibra, o piche mesofásico possibilita a produção de diversos outros materiais. O mais importante e considerado estratégico é o carbono-carbono, uma mistura originada do piche comum adicionado à fibra de carbono. Esse material é fundamental nos foguetes, tanto naqueles que levam satélites para o espaço como para uso militar, no transporte de ogivas nucleares. A falta deste material é um dos motivos no atraso do projeto do VLS - Veículo Lançador de Satélites - em desenvolvimento no CTA. Os países que detêm tecnologia nesse setor não vendem o material necessário para a construção de peças e não fornecem a fórmula.
O projeto de pesquisa dos materiais carbonosos avançados agrupa seis professores-doutores, oito doutorandos, dois professores com mestrado e cinco mestrandos, além de dois engenheiros, sete técnicos e dois bolsistas de iniciação científica. Eles trabalham para atingir a elaboração final do piche mesofásico e a produção dos materiais carbonosos avançados. Trabalho que poderá garantir ao País a produção de plásticos de alta performance que, certamente, serão muito utilizados na indústria e na sociedade do século 21.


