A Mata Atlântica brasileira, ecossistema que apresenta a maior biodiversidade do planeta, é também um dos mais ameaçados, junto com as florestas de Madagascar, na África. Muitas das formas de vida existentes na mata brasileira, preservada hoje em manchas florestais nos estados litorâneos, atraem grande interesse, mas uma merece destaque: é o sapo-pulga ( Psyllophryne didactyla), considerado não só o menor anfíbio do planeta , mas também o menor vertebrado de quatro membros conhecido.
O nome científico da espécie reúne termos gregos para descrever importantes características do animal: psyllo significa pulga, phryne quer dizer sapo e didactyla faz referência à existência de apenas dois dedos nas patas dianteiras. Para dar uma idéia do tamanho do sapo-pulga, basta dizer que os maiores cabem na unha de um homem adulto, medindo cerca de 10 mm. Os indivíduos jovens têm apenas 4 mm, tamanho menor que a ponta de um lápis.
Os sapos são anfíbios sem cauda cujo tamanho, dependendo da espécie, pode chegar a 30 cm, como o conhecido sapo-cururu (Bufo marinus) da Amazônia. Como qualquer espécie animal, os sapos também têm importante função ecológica. São os principais controladores de muitas espécies de invertebrados (insetos e outros) e, em alguns casos, até de algumas espécies de pequenos vertebrados.
O sapo-pulga vive na serrapilheira - o amontoado de folhas caídas no chão - da Mata Atlântica e ajuda a regular as populações de minúsculos invertebrados, como certas formigas, aranhas e besouros, isópodos (um tipo de crustáceo), colêmbolos (um tipo de inseto) e ácaros e pseudo-escorpiões (tipos de aracnídeos), além de larvas.
C.F.D. Rocha/DivulgaçãoIndivíduo adulto do sapo-pulga, o menor sapo do mundo, no chão da Mata Atlântica da Ilha GrandeEssa curiosa espécie existe em poucas áreas da Mata Atlântica. Foi descoberta em 1971 na floresta da serra do Tinguá, no estado do Rio de Janeiro, pelo herpetólogo Eugênio Izecksohn, que a descreveu. De lá para cá, foi encontrado apenas nas matas de Teresópolis e de Petrópolis, também no Rio de Janeiro, e agora - pelos autores - na Mata Atlântica da Ilha Grande, localizada no litoral sul do mesmo estado. Além do fato de só existir nessas poucas localidades da Mata Atlântica, quase nada se conhece sobre a ecologia da espécie.
Para entender melhor seu papel na floresta e alguns aspectos de sua ecologia, como densidade populacional, tamanho e peso dos indivíduos, alimentação, proporção de machos e fêmeas e comportamento ao longo do ano, foi elaborado um programa para estudar a espécie na Ilha Grande. A pesquisa foi realizada entre agosto de 1996 e agosto de 1997 em uma área de cerca de 14 hectares próxima à vila Dois Rios. Retiramos regularmente amostras de 2 m2 de folhiço do chão da Mata, que passaram por uma cuidadosa triagem, em busca do animal. As amostras de folhiço foram pesadas, para avaliar a relação entre a quantidade desse material (por área de mata) e o número de sapos-pulga ali presentes. Além disso, foram retiradas ao acaso, para permitir uma estimativa da densidade de sapos-pulga por hectare de mata. O comprimento dos indivíduos encontrados foi medido com um paquímetro (precisão de décimos de milímetros) e seu peso obtido com uma balança eletrônica (precisão de miligramas). Os hábitos alimentares foram estudados através da análise, em microscópio, das presas contidas nos estômagos dos sapos - todas as presas foram medidas e categorizadas de acordo com o grupo a que pertencem.
Durante o estudo, foram coletadas e analisadas 222 amostras de 2 m2 de folhiço do chão da mata, encontrando-se 90 sapos-pulga. As medições feitas confirmaram que o animal é realmente muito pequeno. O tamanho médio dos indivíduos obtidos na pesquisa foi de 8,3 mm, com o menor medindo 4,3 mm e o maior 10,5 mm. Só existe, em todo o planeta, outro sapo de tamanho semelhante: é a espécie Eleutherodactylus iberia, descoberta recentemente nas florestas do monte Iberia, em Cuba. No entanto, na espécie cubana tanto os machos quanto as fêmeas são um pouco maiores do que o sapo-pulga brasileiro. O peso médio do sapo-pulga também é bastante reduzido: 60 mg. O menor indivíduo encontrado apresentou o impressionante peso de 6 mg e o maior alcançou 124 mg. Com esse peso médio, para obter um grama é preciso reunir uns 15 sapos. Esses valores constituem tamanho e peso realmente muito reduzidos para um animal vertebrado, e explicam por que o sapo-pulga é o menor tetrápodo do mundo. O nome tetrápodo abrange todos os vertebrados com quatro membros (ainda que modificados) e pulmões. Isso inclui anfíbios, répteis (exceto cobras), aves e mamíferos (até mesmo os cetáceos, como baleias e golfinhos).
A quantidade de sapos-pulga por área variou ao longo do ano, mas de outubro a dezembro eles são mais abundantes no folhiço. Estimamos, com base no estudo, que existam 20 indivíduos a cada 100 m2 de chão de floresta (ou 2 mil por ha). Isso indica a presença de um sapo-pulga a cada 5 m2 de chão de floresta. A biomassa de sapo-pulga por unidade de floresta é também impressionante: estimamos que em cada 100 m2 a massa média seja de 1,2 g (ou 120 g por ha).
Os autores integram o Setor de Ecologia do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, Universidade do Estado do Rio de Janeiro

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