Arquivo FolhaSegundo as pesquisas, as abelhas aparentemente memorizam a distância em que o alimento está da colméia, ‘‘contando’’ pontos de referência no caminhoO mel é consumido por muitos animais, inclusive os humanos. Na verdade, foi o único adoçante que a Europa conheceu até a introdução, durante a Idade Média, da cana-de-açúcar procedente da Ásia. Embora o mel de abelha tenha sido bastante estudado, pesquisas recentes mostram que sua produtora, a Apes mellifera, é realmente notável - e está ameaçada.
As abelhas são artrópodes que pertencem à classe dos insetos (respiram, possuem um exoesqueleto e seis pernas), à ordem dos himenópteros (possuem asas de quatro membranas) e à família dos apídeos. Usando o que para nós parece um sistema nervoso pequeno e relativamente simples, as abelhas detectam luz polarizada, memorizam os detalhes de seu ambiente, aprendem e se comunicam.
Meio século atrás, Karl von Frisch, da Universidade de Munique, na Alemanha, decodificou a saracoteante dança em forma de oito que a abelha promove ao retornar à colmeia, após uma bem-sucedida excursão em busca de alimentos (ele ganhou o prêmio Nobel por isso). A dança diz às outras abelhas operárias a distância em que está o alimento encontrado e em que direção, com relação à colméia.
Há 30 anos, descobriu-se que a dança é acompanhada de sons de baixa frequência, mas não se conseguiu saber se esses sons são uma parte necessária da comunicação. Até que uma experiência fascinante, com um pequenino robô de abelha, foi realizada por Axel Michelsen, da Universidade Odense, da Dinamarca, e Wolfgang H. Kirchner, da Universidade de Wurzburg, na Alemanha. O robô dançante de abelha que produziram só conseguia influenciar as abelhas reais se também produzisse os sons corretos batendo as asas.
Kirchner e William F.Towne (Universidade de Kutztown, Pensilvânia) descobriram que, das quatro espécies de abelhas, apenas uma não usava som junto com a dança. A ‘‘silenciosa’’ dançarina, Apis florea, realiza sua coreografia em plena luz do dia, fora da colméia, onde apenas a visão basta para a comunicação. Ela provavelmente representa a abelha primitiva.
As outras três espécies dançam na quase escuridão de suas moradas, onde se tornou necessário desenvolver ‘‘um complexo sistema de comunicação acústica’’. Jurgen Tautz, da Universidade de Wurzburg, e seus colegas estudaram o ‘‘salão de dança’’, um cenário de dez centímetros, logo na entrada da colméia. Quando as abelhas realizam sua dança em uma superfície sobre larvas, as demais têm uma dificuldade maior de captar a mensagem, provavelmente porque as vibrações são amortecidas pelo piso.
As abelhas não apenas aprendem a se comunicar como sabem contar. Lars Chittka e Karl Geiger, da Universidade Livre de Berlim, determinaram que as abelhas aparentemente memorizam a distância em que o alimento está da colméia ‘‘contando’’ pontos de referência no caminho.
Os pesquisadores ergueram num campo quatro tendas alinhadas para servir de pontos de referência. Então, colocaram iscas de açúcar na terceira e na quarta tenda. As abelhas foram em busca das iscas mesmo depois de trocadas de lugar, sendo colocadas entre a segunda e a terceira tenda.
Martin Giurfa e seus colegas da Universidade Livre de Berlim treinaram abelhas para seguir padrões simétricos e assimétricos. As treinadas em padrões simétricos apresentavam um melhor desempenho, de modo que os pesquisadores concluíram que as abelhas ‘‘têm predisposição para um aprendizado segundo padrões simétricos’’.
Tal conclusão parece ajustar-se ao fato de que as abelhas tendem a visitar flores simétricas (que frequentemente possuem mais pólen). Giurfa e equipe levantam a questão de saber se ‘‘capacidades cognitivas podem ocorrer em organismos com um sistema nervoso bastante reduzido’’ e se plantas ‘‘podem ter explorado a capacidade cognitiva de polinizadores durante a evolução das flores’’.
Chittka (agora na Universidade do Estado de Nova York, em Stony Brook) estudou os receptores visuais de parentes artrópodes das abelhas. Os mais ancestrais, como escorpiões e límulos, possuem apenas fotorreceptores verde e ultravioleta em seus olhos.
Todos os insetos, aranhas e crustáceos possuem três pigmentos fotorreceptores, para verde, ultravioleta e azul. Como tais artrópodes têm uma existência de mais de 500 milhões de anos - contra apenas 100 milhões das plantas floridas - é mais provável que as cores das flores tenham evoluído para atrair insetos.
À medida em que a ciência aprende mais de seus segredos, as abelhas enfrentam o risco da extinção, segundo Buchmann e Gary Nabhan, do Museu de Sonora, no Arizona. Velhas e novas enfermidades estão dizimando as abelhas, e abelhas ‘‘africanizadas’’ proliferam com seus parasitas letais.
Pior ainda, a destruição das terras virgens - onde abelhas e outras criaturas polinizadoras vivem - significa uma menor polinização de nossas colheitas. Como advertem Buchmann e Nabhan ‘‘quando a rede de polinização é quebrada, o efeito para as populações humanas são diretos e potencialmente desastrosos’’.

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