Há quase duas semanas, em plena Quarta-Feira de Cinzas, a Intel reuniu jornalistas de todo o mundo em San Jose, Califórnia, para assistir a Craig Barret, seu presidente e CEO, decantar as virtudes do Pentium III, na abertura de uma campanha de lançamento estimada em US$ 300 milhões, a maior jamais promovida pela empresa. Em seguida, os jornalistas atravessaram a ‘‘porta azul’’, símbolo da campanha, e entraram em um recinto onde cerca de 200 empresas de hardware e software exibiam versões de produtos já desenvolvidos para o novo chip. Se a Intel pretendia dar uma demonstração de força no mercado de microprocessadores, conseguiu.
O nome Pentium III foi usado para batizar os chips conhecidos pelos codinomes de Katmai e Tanner. O primeiro, que estréia hoje no Brasil e no restante do mundo, nas versões de 450 e 500MHz e que foi batizado de ‘‘Pentium III’’, é bastante semelhante ao Pentium II. Além da maior frequência de operação, as diferenças principais são um conjunto de novas instruções e um discutível número de série digital, que pode ser acessado por software.
O segundo, o ‘‘Pentium III Xeon’’, será um chip para servidores de rede de alto desempenho. Estará disponível em meados de março, nas versões de 450, 500 e 550MHz, juntamente com a versão de 550MHz do Pentium III. Ao batizar assim a sétima geração de seus microprocessadores, a Intel mostra que aderiu definitivamente à marca ‘‘Pentium’’.
Quanto ao desempenho, a inovação mais importante do Pentium III é o conjunto de instruções SIMD. Como elas são voltadas para gráficos e áudio, rodando aplicações convencionais, não se deve esperar grandes avanços em relação ao Pentium II. Trata-se basicamente do mesmo chip e o incremento da frequência de operação por enquanto é pequeno (de 450MHz para 500MHz). Por que então fazer tanto barulho para lançar um chip que não é muito diferente do antecessor? O alvo parece ser o novo K6-3 da AMD, cujo lançamento mundial aconteceu há uma semana.
A verdade é que a liderança da Intel no mercado de microprocessadores nunca esteve tão ameaçada. Pela primeira vez na história recente, seus chips de topo de linha têm um concorrente, o AMD K6-2, que apresenta não apenas as vantagens de um custo menor, como também, em certas aplicações, um desempenho equivalente ou superior. Não foi por outra razão que a Intel incorporou um cache ‘‘L2’’ ao seu processador Celeron, para recuperar a fatia do mercado de computadores de baixo custo que estava sendo engolida por AMD e Cyrix. Da mesma forma que as novas instruções SIMD são uma resposta à tecnologia 3DNow da AMD. Com o PIII, a Intel espera recuperar a liderança tecnológica dos processadores para desktops da linha PC.
No que toca aos processadores de altíssimo desempenho para a linha PC, a história é outra: o Pentium III Xeon será imbatível. Disponível em 450, 500 e 550MHz usando o conector de 330 contatos (‘‘Slot 2), com cache L2 de 512K, 1Mb ou 2Mb operando na mesma frequência que o processador e incorporando as ‘‘Streaming SIMD Extensions’’ do PIII, será capaz de garantir a soberania da Intel em um nicho no qual ainda não tem concorrência.
A partir do Pentium III, a Intel decidiu incorporar um número de série digital a cada processador. Em resposta, representantes do Electronic Privacy Information Center e da Privacy International, organizações dedicadas à defesa da privacidade, além do grupo anti-spam Junkbusters, solicitaram à Federal Trade Comission americana que recolha os processadores Pentium III já distribuídos à indústria e recomendaram aos consumidores um boicote à Intel e aos fabricantes que adotarem os chips com número de série eletrônico. Isso até que a Intel desista de incluí-lo em seus futuros microprocessadores.
A Intel alega que se trata apenas de uma medida para permitir às corporações controlar melhor suas máquinas em rede e aumentar a segurança do comércio eletrônico. E garante que não pretende vincular o número do chip ao nome e ao endereço dos compradores. Mas não convenceu aos defensores da privacidade que, parodiando o slogan ‘‘Intel Inside’’, batizaram a iniciativa de ‘‘Big Brother Inside’’ e declararam que consideram um mercado dominado por processadores com número de série digital contrário ao interesse público.
Reagindo à ameaça de boicote, a Intel decidiu ‘‘recomendar enfaticamente’’ aos fabricantes que forneçam máquinas com o número de identificação desabilitado por padrão. E fornecerá um aplicativo que permitirá ao próprio usuário habilitá-lo. Mas durante a entrevista coletiva, Mike Aydar, vice-presidente de lançamento de produtos da Intel, deixou claro que a companhia não pretende remover a função de seus chips e a decisão de mantê-lo ou não habilitado será do usuário.
‘‘É como decidir se é ou não seguro fornecer o número do cartão de crédito quando se compra por telefone’’, disse ele.
O problema é que nada impede as softhouses de incluir em seus programas rotinas capazes de habilitar e ler o número de série da CPU sem o conhecimento do usuário. Mesmo porque o nível de proteção do utilitário fornecido pela Intel é ridículo (um programa cuja chamada será incluída no Registro de Win98 e que desabilitará o número quando a máquina for inicializada).
A inclusão do número de série digital pode ser uma poderosa arma contra a pirataria: para impedir que um programa seja instalado em mais de uma máquina, basta vincular seu número de licença ao número de série do microprocessador. Se o uso do número de série digital virar prática corrente, será possível liquidar com a pirataria desenvolvendo e distribuindo programas que só funcionam depois de vinculados à CPU. Por isso comenta-se que a inclusão do registro no chip foi resultado de pressão da indústria do software. Se é verdade, o assunto ainda vai dar muito pano para manga. Por outro lado, especula-se que a idéia pode ter sido apenas um golpe de marketing da Intel, produzindo chips ‘‘seguros’’ que concorreriam com os processadores comuns dos concorrentes. Porém, os especialistas em segurança levantam sérias restrições à eficácia da medida.
A verdade é que, ao invés de aumentar a segurança, a iniciativa pode produzir o efeito oposto. Os servidores de redes corporativas, em geral entregues aos cuidados de profissionais, de uma forma ou de outra são dotados de alguma proteção. Porém, os sistemas mais vulneráveis a ataques de hackers são as quase sempre desprotegidas máquinas de usuários domésticos que acessam a Internet. Não será difícil para um hacker acessar sítios de comércio eletrônico, por exemplo, através da máquina de um usuário incauto, usando seu número de identificação sem seu conhecimento. Evidentemente, os técnicos da Intel estão cientes destas debilidades. E se a inclusão do número de série foi golpe de marketing, tem tudo para redundar em um tiro pela culatra.
Os primeiros Pentium III serão fabricados com a tecnologia de 0,25 mícron, mas ainda no terceiro trimestre deste ano a Intel passará a fabricá-los com a tecnologia de 0,18 mícron. A medida exprime a espessura da camada de silício na qual os componentes internos do microprocessador são gravados. Reduzi-la diminui a resistência interna à passagem da corrente elétrica, permitindo baixar a tensão de alimentação do núcleo (‘‘core’’) do chip de 1,8V para 1,5V nos processadores para uso em desktops e para 1,1V nos destinados a notebooks.
O resultado será uma redução do consumo de potência, que se refletirá em um aumento da duração da carga das baterias para os notebooks e a curto prazo na possibilidade de atingir maiores frequências de operação para os desktops, pois o maior obstáculo ao aumento da frequência de operação dos processadores é a elevação da temperatura interna devido à dissipação de calor causada pelo consumo da potência. Como ela depende da tensão de alimentação e da frequência de operação, a única maneira viável de aumentar a frequência mantendo temperaturas internas aceitáveis é reduzir a tensão, o que se torna possível com a redução da espessura da camada de silício. Com a tecnologia de 0,18 mícron, a Intel espera que o Pentium III alcance frequências de operação de 800MHz até o próximo ano. Ela deverá testar um processador de 1GHz rodando em caráter experimental antes do fim do ano.
Outro ponto importante é o tipo de conexões internas, responsável por 50% dos custos de fabricação de um microprocessador. Enquanto a Motorola pretende adotar a curto prazo contatos de cobre, mais eficientes que os de alumínio por apresentar uma resistividade 40% menor, a Intel ainda não a considera madura para ser usada imediatamente.Agência O GloboNúmero de série digital no PIII causa polêmica e ameaça de boicoteB. Piropo,
Agência O Globo

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