Para prolongar a vida
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quarta-feira, 02 de abril de 1997
Cleide Cavalcante Agência Estado 
ReproduçãoCom as novas descobertas a Medicina torna-se mais individualizadaEnquanto milhões de pessoas acompanham entre assombradas e maravilhadas a história da clonagem da ovelha Dolly - criada a partir da célula de uma ovelha adulta - uma legião de cientistas está empenhada num projeto destinado a beneficiar significativamente o homem, num futuro bem próximo. Graças ao Projeto Genoma, a medicina preventiva deverá dar lugar à medicina preditiva, pela qual, daqui a uns 20 ou 30 anos, uma pessoa com 18 anos de idade que se submeter a um determinado tipo de exame receberá um relatório citando suas predisposições para certas doenças. Neste caso, o paciente poderá se prevenir mais adequadamente do que hoje em dia.
Pesquisas de laboratório já estão detectando os genes responsáveis por alguns tipos de câncer e diabetes, entre outras doenças. Segundo os cientistas, a medicina será mais individualizada. Por exemplo: se o exame indicar que um paciente não tem tendência para contrair câncer do pulmão, ele poderá fumar sem problemas. Tudo vai depender da carta de predisposições para as doenças.
Até lá, no entanto, adverte a Organização Mundial de Saúde, será importante que os especialistas na área de Genética aproveitem os resultados obtidos em suas experiências para criar vacinas e remédios mais eficazes contra as chamadas doenças tropicais, que atingem milhões de pessoas em todo o mundo e podem atrapalhar os planos futuristas.
Boa parte dos cientistas empenhados no Projeto Genoma Humano defende essa tese. O geneticista brasileiro Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais, lembrou a posição da OMS em encontros de especialistas internacionais e alertou que, além da incidência das doenças tropicais (esquistossomose, leishmaniose, filariose, doença de Chagas), é preciso combater o grande mal que é a fome - segundo ele, o principal problema do Brasil.
EmergencialO ex-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Crodowaldo Pavan, entende que chegar a uma base genética é um grande avanço tecnológico, jamais imaginado há uns vinte anos, mas alerta: Só que a situação do homem é emergencial mesmo. Na sua opinião, o grande problema, hoje, é a relação homem-vírus, porque os microorganismos é que estão relacionados com a sobrevida do homem:
A Organização Mundial de Saúde está muito preocupada com as doenças endêmicas humanas. No caso da malária, os plasmóides não respondem mais aos medicamentos, e os insetos se tornaram resistentes aos pesticidas. E isto mata muito mais do que o alcoolismo.
Com base nesse raciocínio, Pavan diz não concordar com a prioridade dada ao Projeto Genoma Humano, por considerar ser milhares de vezes mais importante estudar a questão das doenças endêmicas.
O Projeto Genoma, que pretende identificar todos os genes do ser humano até o ano 2002, recebe um investimento calculado em 3 bilhões de dólares. Segundo Pavan, se esse dinheiro tivesse sido empregado no estudo dos vírus, os resultados seriam melhores para a espécie humana.
Ele insiste na necessidade de se estabelecer uma distinção entre o Projeto Genoma e os trabalhos de biologisa molecular em genética humana. Quanto ao segundo item, Sérgio Danilo Pena diz que o projeto vai provocar uma revolução na biologia molecular, tornando mais eficientes as técnicas de melhoramento genético animal e vegetal e beneficiando inclusive o Brasil.


