Que importância poderia ter uma simples e frágil bromélia no processo de preservação de um bioma único e em declínio, como a Mata Atlântica brasileira?
ReproduçãoO juiz de direito do Rio de Janeiro, Elton Leme, há 20 anos dedica-se ao estudo destas plantas. Através de livros e artigos ele busca conscientizar leigos e pesquisadores sobre a diversidade de espécies como elemento importante na conservação do que resta da Mata Atlântica.
O projeto Nidularium desenvolvido por ele durante 10 anos, foi concluído em 1996 e resultou em três livros: ‘‘Canistrum’’, ‘‘Canistropsi’’ e ‘‘Nidularium’’. Os dois primeiros volumes já foram publicados e ‘‘Nidularium’’ está a espera de patrocínio. O livro sobre o gênero Canistropsi foi lançado no Brasil recentemente e nos Estados Unidos em julho do ano passado.
O trabalho desenvolvido por Elton Leme nesta área é muito bem aceito e respeitado no exterior, tanto que ‘‘Canistropsi’’ foi patrocinado por empresas norte-americanas. Além do projeto ‘‘Nidularium’’, um outro livro sobre bromélias, e mais de 200 artigos engrossarem a lista de produção do juiz de Direito. Os artigos foram publicados todos no exterior, sendo a maioria nos Estados Unidos.
ReproduçãoUma das mais belas espécies de Canistropsis é encontrada apenas no Rio de JaneiroPara desenvolver o projeto ‘‘Nidularium’’, Elton Leme trabalhou com um universo de 150 espécies e seis gêneros. Destes, 30 espécies novas foram descobertas por ele e dois gêneros foram criados em 10 anos de pesquisas. ‘‘Foi feita uma reorganização de todas as espécies, com algumas passando de um grupo para outro e a criação de gêneros novos’’, explica.
Com isto, Elton Leme pretende sensibilizar pesquisadores e leigos para os problemas da Mata Atlântica e chamar a atenção sobre a riqueza deste bioma e seus aspectos normalmente não destacados. O gênero Nidularium é o tema central do trabalho e por questões econômicas este terceiro volume será o último a ser lançado.
‘‘Nidularium é mais volumoso, tem 250 páginas e abrange 50 espécies’’, afirma. Encontrado em uma vasta extensão - do Rio Grande do Sul até a Bahia - Nidularium no conceito de Elton Leme é o gênero que mais caracteriza a Mata Atlântica pela sua adaptação em ambientes úmidos, por acumular água tanto nas folhas quanto entre as flores. E é esta característica que faz das bromélias uma das únicas plantas com capacidade de multiplicar a sustentação da vida no ambiente em que se encontram. Somada uma outra característica, a facilidade em se desenvolver em diversos níveis da floresta - solo, troncos, folhas - , cada diferente espécie de bromélia tem papel importante na sobrevivêcia de uma infinidade de outras espécies, desde seres microscópicos até animais de porte maior.
ReproduçãoA Canistropsis seidelli vive preferencialmente nas matas de baixa altitudeO mico-leão dourado, por exemplo, vai buscar nos animais - aranhas, lagartixas, pererecas - que vivem na água acumulada entre as folhas das bromélias, a proteína necessária para a sua alimentação. Este é apenas um exemplo da função destas plantas na preservação da Mata Atlântica Brasileira, onde são encontradas em abundância.
Desta forma, o extrativismo destas plantas é uma ameaça à preservação da Mata Atlântica. ‘‘Além de colaborar para o risco de extinção, esta prática promove a eliminação do ambiente como um todo’’, alerta Elton Leme. Nos sete por cento de áreas residuais da Mata Atlântica ainda é possível encontrar espécies novas. Elton está publicando nos EUA um trabalho que apresenta novas 27 espécies.
O extrativismo ainda é um problema sério no Brasil. Segundo Elton, esta prática se dá, em muito, devido à ‘‘falta de consciência dos paisagistas que preferem baratear seus orçamentos e promovem o extrativismo’’. Em lugares como Vitória (ES) e interior da Bahia é comum as prefeituras plantarem nas praças públicas, bromélias provenientes do extrativismo, de acordo com Elton.
A industrialização de bromélias vem coibindo timidamente esta atividade no Brasil. Perto dos grandes produtores mundiais - EUA e Holanda - o Brasil está apenas ‘‘engatinhando’’ num negócio de milhões de dólares. Mas segundo Elton Leme, já evoluiu bastante.
Há cinco anos foi criada a Sociedade Brasileira de Bromélias que visa organizar um movimento de combate ao extrativismo. A partir daí, de acordo com o juiz de Direito, surgiu a produção organizada. ‘‘Hoje, em Campinas, existe uma indústria que não deixa nada a desejar para as indústrias estrangeiras’’, afirma. A indústria produz 30 mil plantas/mês, incluindo seus próprios produtos.
O cultivo de bromélias data do século passado em países como Bélgica, Holanda e Inglaterra. Com as guerras mundiais o grande acervo europeu foi totalmente destruído. A partir da 2º guerra, os EUA entraram na produção e as bromélias tornaram-se um negócio de milhões de dólares.
Com idade mínima de 36 milhões de anos, data de fósseis encontrados na Costa Rica, existem hoje cerca de três mil espécies de bromélias. Mais da metade encontram-se no Brasil. As outras estão espalhadas nas américas do Sul, Central e sul da América do Norte. A Pitcirnia feliciana é a única espécie que vive fora das américas. Ela é encontrada na África.
Em seu trabalho, Elton Leme destaca a importância da preservação destas plantas como forma de proteger o que resta da Mata Atlântica devido à sua grande importância para a sobrevivência de diversas outras espécies animais. Mas ele chama a atenção sobre uma outra função destas plantas: a meramente contemplativa. ‘‘O ser humano é a única espécie que contempla. O homem precisa da beleza para seu equilíbrio emocional’’, conclui.

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