Josoé de CarvalhoO xis da questãoOs anticoncepcionais existentes no mercado apresentam altas doses de hormônios sintéticos. O que será lançado é injetável e fabricado com hormônios naturaisO primeiro anticoncepcional injetável largamente testado em mulheres da América Latina, o Cycoflen, será lançado no mercado brasileiro no início do segundo semestre deste ano. Um laboratório do Rio de Janeiro já foi credenciado pela Organização Mundial da Saúde - OMS - e pelo Ministério da Saúde para iniciar sua produção em escala industrial. Entre julho e agosto o novo medicamento deverá chegar às farmácias.
O Cycoflen foi desenvolvido há dez anos por laboratórios europeus e norte-americanos ligados aos programas internacionais de controle de natalidade da Organização Mundial de Saúde (OMS). A partir de 95, ele começou a ser testado em três mil mulheres de quatro países latino-americanos - Brasil, Chile, Peru e Colômbia.
No Brasil, a Unicamp - Universidade de Campinas, SP - foi responsável pelo acompanhamento dos efeitos do anticoncepcional em 360 voluntárias. ‘‘Elas são originárias de diferentes estratos sociais e regiões geográficas. Foram escolhidas para que pudessem obter um grupo representativo dos diversos biotipos da mulher brasileira’’, explica o médico Carlos Alberto Petta, do departamento de Tocoginecologia da Unicamp, responsável pelas pesquisas.
Os testes realizados nos quatro países foram concluídos em fevereiro deste ano e no mês seguinte o anticoncepcional foi liberado pelo Ministério da Saúde para ser produzido no País. ‘‘O credenciamento do laboratório também ficou por conta da OMS que tem a patente do medicamento’’, afirma Petta.
Nova geraçãoDe acordo com o relatório sobre os testes apresentado pelo departamento de Tocoginecologia da Unicamp, o Cycoflen é 80% mais eficiente que as pílulas comuns utilizadas por mulheres que desejam evitar a gravidez. Ele é ministrado através de uma injeção aplicada uma vez por mês nos músculos do braço ou nádega da mulher. ‘‘Só este fato é uma vantagem. A dose única evita os frequentes casos de esquecimento de ingestão da pílula’’, diz.
Mas as vantagens do novo anticoncepcional estão longe de se limitar a isso. O Cycoflen foi produzido a partir de conceitos das últimas gerações de anticoncepcionais injetáveis. Ao contrário das pílulas comuns, fabricadas com hormônios sintéticos, ele utiliza apenas hormônios naturais encontrados no corpo das mulheres. ‘‘Assim, os efeitos desejados são obtidos com a utilização de doses bem pequenas’’, explica Petta. Esta é uma das mais importantes características que diferenciam o Cycoflen de outros anticoncepcionais injetáveis existentes no mercado. No Brasil, o único injetável antigo comercializado nas farmácias é o Perlutan. ‘‘Mas o Perlutan, desde que foi lançado, emprega doses de hormônio muito altas. Por isso, não conseguiu sedimentar uma cultura de anticoncepcionais injetáveis no Brasil’’, argumenta Petta.
No Cycoflen as dosagens de hormônios, utilizadas como nas pílulas comuns com o objetivo de inibir a formação do óvulo, são muito baixas. Além disso, sua fórmula original contêm substâncias que induzem a alterações no muco produzido pelo útero. ‘‘O muco se torna quimicamente letal para o espermatozóide, que morre ao entrar em contato com ele, aumentando a eficiência do anticoncepcional’’, explica.
‘‘Estes conceitos são fundamentais na nova geração de anticoncepcionais injetáveis’’, diz. No Brasil, há poucos meses, foi lançado também no mercado um injetável de nova geração, a Messigina. ‘‘Este produto foi elaborado a partir das mesmas pesquisas que geraram o Cycoflen e também é credenciado pela OMS. Mas o Cycoflen, por enquanto, é o primeiro exaustivamente testado em mulheres brasileiras’’, explica.
Efeitos ColateraisEstas características conceituais do Cycoflen é que permitem uma redução drástica dos efeitos colaterais provocados pelo medicamento. ‘‘O anticoncepcional interfere pouco no metabolismo das usuárias’’, garante. As mulheres que o utilizam menstruam normalmente e apenas 10% das integrantes do grupo pesquisado pela Unicamp apresentaram irregularidades nos ciclos menstruais.
Os testes realizados com o Cycoflen nas três mil mulheres da América Latina mostraram que apenas 6% delas tiveram problemas de alteração do metabolismo ou dores de cabeça e nas mamas, sintomas frequentes em praticamente todas as usuárias de pílulas anticoncepcionais comuns.
‘‘A probabilidade de engravidar com o Cycoflen é de três em cada mil mulheres’’, afirma. Com a pílula comum, esta probabilidade é de oito para cada cem mulheres. ‘‘O novo produto tem, portanto, uma eficiência que pode ser comparada aos métodos radicais, como o da laqueadura. E com a vantagem de ser reversível imediatamente, desde que a mulher pare de injetar o anticoncepcional’’, conclui.
Nas farmáciasA licença para fabricação de Cycoflen foi concedida ao laboratório Millet-Loux, do Rio de Janeiro, que vai comercializá-lo ao preço médio de R$ 10,00 a dose. O Ministério da Saúde deve anunciar, ainda, que o medicamento será distribuído através da rede pública de saúde, por intermédio da Ceme (Central de Medicamentos). ‘‘Segundo o acordo feito com o laboratório produtor, o Cycoflen será vendido ao Ministério pela metade do preço’’, revela Petta. ‘‘E a Ceme o repassará para os Estados e municípios, também a preços reduzidos e de acordo com a demanda’’.
A OMS acompanha de perto as pesquisas da Unicamp para a aprovação do anticoncepcional. ‘‘Todos os nossos relatórios foram repassados à organização’’, diz Carlos Alberto Petta. Segundo ele, a OMS aprovou o Cycoflen e deverá divulgá-lo, em escala nacional, como nova opção nos programas públicos de controle de natalidade. ‘‘Na verdade, é isso que nos importa: o novo produto surge como mais uma opção importante para o controle de natalidade’’, conclui.

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