O ódio parece ter criado raízes na Internet e por todo lado há sinais de sua presença. Na Califórnia, Richard Machado foi considerado culpado de ter enviado através da Internet mensagens eletrônicas a estudantes asiático-americanos, anunciando que eles seriam ‘‘caçados’’.
Na Flórida, um grupo de nove estudantes foi preso recentemente por publicar na Internet um panfleto em linguagem racista e vulgar, sugerindo violência contra um negro: o diretor da escola. Tudo indica que tais incidentes são apenas a ponta de um iceberg de grande profundidade. ‘‘Estamos muito, muito preocupados’’, disse Abraham Cooper, decano do renomado Centro Simon Wiesenthal, de Los Angeles. ‘‘Trata-se de algo muito grave’’.
A explosão de popularidade da Internet nos últimos anos se transformou em terreno propício para aqueles que difundem mensagens de ódio, intolerância e violência para um público cada vez maior.
‘‘Já encontramos mais de 1.100 sites problemáticos’’, diz Cooper, referindo-se a um novo estudo intitulado ‘‘Digital Hate 2000’’(Ódio Digital 2000), que será publicado por este centro no próximo mês.
O conteúdo dos sites de ódio vai desde páginas web com detalhes sobre fabricação de bombas, até propaganda de grupos extremistas que promovem atividades terroristas semelhantes ao atentado que matou cerca de 170 pessoas em 1995, em Oklahoma. Cooper e outros especialistas do Centro Simon Wiesenthal também se preocupam com o fato de que cada vez mais páginas de ódio estejam direcionadas para as crianças.
Há, por exemplo, versões racistas dos populares jogos tridimensionais ‘‘Doom‘‘e ‘‘Wolfenstein’’ que podem ser baixadas direta e gratuitamente da Internet. Na ‘‘versão de ódio’’ do ‘‘Doom’’, o vencedor precisa liquidar judeus, negros e outras minorias’’, diz Cooper. Páginas dedicadas ao jogo ‘‘Wolfenstein 3D’’ celebram o nazismo com câmaras de gases, torturas e estereótipos racistas’’ e, segundo Cooper ‘‘são repugnantes’’.
O jogo original Wolfenstein 3D - sobre um soldado norte-americano que tenta escapar de uma prisão alemã durante a Segunda Guerra Mundial - sempre foi criticado por seu fundo racista. Ele já foi proibido na Alemanha.
Segundo Jordan Kessler, porta-voz da Liga Antidifamação de Nova York, ‘‘o campo de batalha mudou na Internet’’ desde que, em 1995, apareceu ‘‘Stormfront’’, o primeiro e mais conhecido site de ódio de Don Black, um ex-membro da seita racista norte-americana Ku Klux Klan (KKK). ‘‘Existe ali uma subcultura muito sofisticada e preocupante’’, diz Kessler. Don Black, de 45 anos, nascido no Alabama, desde que deixou a KKK, há pouco mais de dez anos, continuou a proclamar por sua conta a supremacia branca e reconhece: ‘‘A Internet tem sido para nós uma tremenda vantagem’’. ‘‘É por isso que eu dedico a ela a maior parte do meu tempo. Tenho a sensação de ter conseguido através da web mais do que nos meus 25 anos de ativismo político’’, declarou ele recentemente.
‘‘Ao contrário do que acontecia antes, quando chegávamos ao público somente através de panfletos ou desfiles com a participação de umas duzentas pessoas, agora podemos alcançar milhões’’, acrescentou ele.
Uma olhada na página ‘‘Stormfront’’ - com seus caracteres góticos e uma cruz celta rodeada pelas palavras ‘‘White Pride World Wide’’ (Orgulho Branco em todo o Mundo) - ilustra as tendências raciais e políticas desse site, apesar de Black negar veementemente que esta seja uma ‘‘pagina de ódio’’. ‘‘O termo ‘grupo de ódio’ vem sendo usado para agitar o debate’’, afirma. Outras assinalam que tal ‘‘debate’’ pode ser perigoso.
A pesquisadora Agatha A. Curran examina em seu ensaio ‘‘Estudo dos Grupos de Ódio na Internet’’ páginas web como ‘‘Stormfront’’, ‘‘White Pride’’ (Orgulho Branco) dos ‘‘Anjos Arianos’’, a página ‘‘Online Fascist Resource’’ ou a rede ‘‘Western Imperative Network’’. Todos, enfatiza Curran, incluem símbolos de ódio e de extremismo, e defendem sua unilateralidade.
Curran destaca tópicos relacionados com raça, supremacia branca, a ‘‘perda’’ da África do Sul para os negros, outros afirmando que os negros são intelectualmente inferiores aos brancos ou que os brancos estão perdendo poder, além de toda uma série de mensagens anti-semitas. A quantidade de referências desses gêneros nos sites web é impressionante, diz Curran.
Segundo Gail Gans, do Centro Simon Wisenthal, o perigo real de tais mensagens de ódio é caírem nos ouvidos de alguém com tendência à violência. ‘‘Eventualmente, as palavras podem também matar’’, diz ela. Para contrabalançar a divulgação dos sites de ódio, a Liga Antidifamação lançou recentemente um ‘‘Filtro de Ódio’’, que os usuários podem instalar em seus computadores para bloquear determinadas páginas consideradas como potencialmente perigosas.
O fator decisivo para bloquear um site é o conteúdo geral, e não palavras específicas, explica Kessler. O ‘‘Hate Filter’’(www.adl.org) pode ser baixado da página da Anti Defamation League por um período de teste de sete dias. A Liga Antidifamação e outras organizações estão divulgando informação sobre a propaganda e as intenções dos grupos em questão. ‘‘Utilizamos a rede para falar de tolerância’’, diz Kessler.
O Centro Simon Wisenthal vai mais além, aconselhando aos provedores de Internet a eliminar determinados sites de seu programa. Enquanto não houver um guia on line, os provedores de Internet podem ser considerados como a porta do céu ou do inferno, afirma Cooper.
Enquanto países como o Canadá, a Alemanha e a Grã-Bretanha eliminam regularmente os sites de ódio, cada vez mais grupos procuram empresas dos Estados Unidos para alojar suas páginas web, abusando da liberdade de expressão consagrada na Constituição norte-americana.
‘‘A Constituição protege todo tipo de opiniões, tanto as más como as boas, a propaganda comunista ou nazista, o material intolerante, racista ou sexista’’, assinala Eugene Volokh, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Los Angeles em Irvine, Califórnia. ‘‘A única exceção é quando se ameaça a vida de alguém de modo que um ouvinte típico acredite que se está falando seriamente’’, diz.
Nesse cenário, o Centro Wisenthal e outros enfatizam que não buscam uma proibição geral dos sites de ódio. ‘‘Em vez de apelar aos governos, estamos exortando a indústria a estabelecer novas normas’’, afirma Cooper. Mas o perigo existe e as mensagens se espalham pela Internet com a velocidade de um raio.
‘‘Já não importam as limitações monetárias nem geográficas’’, diz David Goldman, diretor da HateWatch, de Cambridge, Massachussets, um grupo de vigilância das organizações que difundem ódio pela Internet. ‘‘O que estamos vendo é apenas a fase inicial do potencial que existe na Internet para o surgimento de uma coalizão racista’’, adverte.

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