A compulsão sexual é uma dependência bastante debatida na área médica. Como as drogas, o sexo em excesso pode apresentar, além de causas psicológicas (consideradas as principais vilãs para o viciado em sexo), outras causas ligadas ao organismo. Mas há divergências entre profissionais das áreas biológica e psicológica.
Para o psicanalista Marcelo Castro, a compulsão não é uma doença. ‘‘É um sintoma, um sinal de uma busca, uma falta; é como se exterioriza a maneira de buscar essa falta. Uma busca em vão. E aí aparece a analogia com a droga, por exemplo’’, explica.
O psicanalista diz que na compulsão sexual o indivíduo não sabe o que está buscando. Para ele, o que existe é uma necessidade compulsiva de atuação sexual. Mas há casos e casos. Não existe uma única síndrome de compulsão. ‘‘Em termos freudianos, a pessoa não é vítima da doença e sim sujeito dela. Há questões importantes como o que a busca pelo sexo quer revelar? O que isso significa no inconsciente da pessoa?’’, questiona. ‘‘Quando você rotula, você interrompe a descoberta da pessoa, cessa uma atitude de investigação mais profunda’’, admite.
Culpa, depressão, o ‘dar-se conta da situação’ são alguns sinais mostrados pelos compulsivos logo após a atividade, seja com sexo, álcool, comida ou drogas. Mas há tratamentos para tais casos. São utilizados medicamentos para os sintomas associados ao tratamento psicológico para ajudar na busca. ‘‘São medicamentos que ajudam a suportar o sofrimento. É o combate da droga com outra droga’’, observa.
O psicanalista diz que os grupos de auto-ajuda dão suporte, apoiam a pessoa e podem servir de rede de sustentação.
Distúrbio emocional A sexóloga Devanira Domingues acredita que não há justificativa orgânica para a compulsão. ‘‘É um distúrbio emocional que pode levar a outros problemas fisiológicos. Na tentativa de compensar algo em nível emocional, o compulsivo acaba sempre buscando alguma coisa. Tanto o alcoólatra como o obeso, por exemplo, acabam desenvolvendo um problema fisiológico. O sexo chega a causar um estresse pelo excesso da prática.
Devanira diz que a compulsão sexual indica um comportamento afetivo desestruturado. ‘‘Nesta situação, o agrado maior fica em nível de genitália’’, diz. O que acontece com o compulsivo é que existe uma grande quantidade de prática sexual por dia para poder aliviar o desconforto da compulsão. ‘‘Ele até tem o prazer no momento, mas no término do ato fica uma insatisfação muito grande, porque ele não se abasteceu afetivamente’’, explica.
A compulsão sexual, segundo Devanira, não é vista como doença dentro da sexualidade. ‘‘É um distúrbio de comportamento’’, define. O compulsivo atinge um limite em que ele não escolhe nada: nem hora, nem lugar, nem parceiro. A promiscuidade passa a ser a prática sexual do indivíduo. Devanira observa que quando está sem parceiros, o compulsivo se masturba com alta frequência, usa acessórios eróticos e submete-se a qualquer situação que lhe dê a prática sexual.
A sexóloga conta que depois do momento de prazer vem a ressaca: desconforto, angústia e tristeza, sintomas bem semelhantes aos do alcoólatra e do viciado em drogas.
Consideradas pessoas entristecidas e frustadas por sua ‘‘anormalidade’’, os compulsivos sexuais não são tarados, defende Devanira. Para ela, a compulsão não é a busca pelo novo; é consequência de um distúrbio afetivo. No caso, o compulsivo geralmente busca um parceiro carente - o par ‘‘perfeito’’, que pode satisfazê-lo ao mesmo tempo em que se satisfaz.
Sexopatia Segundo o neurologista Lincoln Brazil e Silva, a ‘‘sexopatia’’, como ele denomina a compulsão, deve ser vista de maneira mais ampla. Ele explica que existem lesões que destroem os lobos temporais do cérebro levando a uma hiperatividade sexual. Mas são raros os casos. ‘‘As transgressões sexuais raramente têm causas cerebrais’’, diz. ‘‘São problemas situacionais: casos de repressão, angústia, psicopatia, problemas deseducacionais’’, define. Para Lincoln Brazil, os problemas de hipersexualidade ou perversão estão ligados muito mais a ambientes sócio-econômicos do que a problemas orgânicos.
Para o especialista, os viciados em sexo geralmente são psicopatas ou sociopatas sexuais, são pessoas que não se bastam e tem que procurar ‘‘apoio’’ em outras. ‘‘O vício por sexo tem causas muito mais psicológicas do que orgânicas’’, acredita. Mas também há pessoas com desvios sexuais decorrentes de outros problemas no cérebro.
A psiscóloga Maria Tereza Maldonado, autora do livro ‘‘Lições de Vida para Casais’’, atestou em entrevista à Agência Estado que o vício de sexo é uma doença e os grupos de auto-ajuda são a melhor alternativa para a cura. ‘‘Como qualquer outra compulsão, o vício de sexo é um comportamento repetitivo, sobre o qual a pessoa não tem controle’’, explicou. Segundo ela, os sexólotras são geralmente pessoas ansiosas, com uma forte necessidade de auto-estima e uma grande carência afetiva. ‘‘Quando saem para mais uma conquista, querem mostrar que são o tal, mas no fundo não passam de pessoas infelizes e inseguras’’, avalia.

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