O URÂNIO NOSSO DE CADA DIA
Roberto Barros de Carvalho Ciência Hoje
Apesar de sua importância na fabricação de elemento combustível essencial à geração de energia em usinas atômicas, o urânio assombra diante dos riscos de um vazamento acidental. Mas o perigo desse metal para a saúde humana não se restringe à sua utilização como combustível nuclear; está também no fato de concentrar-se, em qualidades variáveis, em muitos alimentos de origem animal e vegetal.
O problema é sério e vem merecendo um amplo estudo, conduzido no Laboratório do acelerador Linear, do instituto de Física da USP, com o apoio da Faculdade de Veterinária de Araçatuba/Unesp, da Universidade de Santo Amaro(SP), do Centro de Biotecnologia e Engenharia Genética de Cuba e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas e Nucleares (SP).
Em fertilizantes fosfatados e no fosfato bicálcio detectamos concentrações de urânio que variavam de 10 a 200 partes por milhão (ppm), relata o físico da USP João Arruda Neto, coordenador dos trabalhos. A Organização Mundial de Saúde não admite mais que 30 ppm diários de urânio em produtos a serem ingeridos. Arruda lembra que apenas parte do metal presente nos fertilizantes é absorvida pelas plantas que abundam. O fosfato bicálcico, vale lembrar, é um complemento mineral usado para enriquecer a ração de aves e gado de corte (nas proporções de 50% e 30% respectivamente), que mais tarde serão consumidos pelo homem.
Testes feitos com ratos wistar tratados com produtos contendo urânio revelaram elevada concentração da substância principalmente nos rins, fígado, coração e intestino. Os ossos, sobretudo os fêmures, ainda estão sendo analisados. Os dados já disponíveis indicam que, de todo o urânio absorvido (ingestão menos excreção), 80% foram para o tecido ósseo. É preciso lembrar, no entanto, que os ratos testados ingeriram diariamente o metal desde o desmame. Testes como esses permitem deduzir o que pode ocorrer no organismo de outros animais e do próprio homem. A extrapolação é perfeitamente aceitável, diz Arruda.
As plantas, que podem acumular o urânio natural do solo ou presente em fertilizantes fosfatados, também são alvo de investigação da equipe, que já começou a estudar a capacidade de absorção do metal por alfaces cultivadas em soluções hidropônicas. Em breve, outros vegetais também serão monitorados. Os pesquisadores querem calcular a taxa de transferência de urânio do solo para as plantas e saber qual a concentração do metal em cada uma de suas partes.
O efeito radiológico do urânio no organismo humano é extremamente deletério. O maior problema é que, como o urânio mimetiza o cálcio, o organismo o reconhece como tal, incorporando-o aos ossos e à medula, relata João Arruda. Isso é especialmente grave no caso de indívíduos que estão em fase de crescimento, pois o metal ficará incorporado para sempre ao seu sistema ósseo. Como é um elemento radio-ativo, o urânio absorvido passa a bombardear a medula, abrindo caminho para a instalação de tumores malignos.
Seu efeitos toxicológicos não são menos sérios. Ingeridos, o urânio acumula-se em vários órgãos, principalmente nos rins, provocando danos às vezes irreversíveis, como a falência renal crônica.
Diante da constatação de que o urânio tende a acumular-se nas vísceras animais, como apontaram os testes feitos com ratos wistar, João Arruda recomenda que, em alguns casos, talvez as pessoas precisem alterar seus hábitos alimentares. As partes menos nobres devem ser preteridas em favor do músculo, que, segundo a pesquisa, concentrou quantidades ínfimas do metal.





