Waldemar PadovaniCésar Lattes: ‘‘Agora eu vou contestar a contestação do Waldyr’’Do alto de seus 72 anos, César Lattes, o mais famoso físico brasileiro, conhecido e respeitado mundialmente, não deixa de revelar uma ponta de ironia em seu sorriso quando comenta o trabalho de Waldyr Rodrigues Jr. ‘‘Do ponto de vista da teoria é um trabalho histórico. O Waldyr é muito competente e não tenho dúvidas dos resultados que obteve. Mas, como físico experimental, me fio nas comprovações experimentais. Portanto, acredito que só experiências poderão dimensionar todo o alcance deste trabalho. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer que o trabalho de Einstein também foi unicamente teórico. As comprovações experimentais vieram depois. Nestes últimos dez anos, acumulam-se evidências isoladas de que Waldyr realmente está no caminho certo’’, afirma.
Mas a ironia não vem por conta deste comentário. Vem por conta de uma história ocorrida há mais de quinze anos e que envolveu o próprio Waldyr em uma polêmica pública com César Lattes. No início dos anos 80, Lattes, baseado em longas experiências realizadas com equipamentos muito simples, nos laboratórios do Instituto de Física da Unicamp, apresentou uma série de resultados que, segundo ele, contestaram bases essenciais do Principado da Relatividade e exigiram uma revisão da Teoria da Relatividade proposta por Albert Einstein. Fotografando por muitas horas, durante muitos e muitos dias, as refrações produzidas por um feixe luminoso, ele observou variações bem claras nestes registros. A Teoria da Relatividade não admite variações deste tipo de emissões de ondas de luz.
Durante a apresentação deste trabalho, a imprensa brasileira em peso estava presente na Unicamp e o assunto saiu rapidamente do campo acadêmico para se transformar em polêmica mundana. Alguns jornais chegaram a tergiversar o debate, e foram em busca da genealogia da expressão ‘‘encher o saco’’, pois, durante sua conferência, Lattes havia fuzilado, diante das insistências de uma repórter da TV Globo: ‘‘Não me encha o saco’’.
Na ocasião, o próprio Waldyr Rodrigues Jr. que trabalhava como assistente de Lattes, contestou os resultados. Afirmou que as variações haviam sido provocadas por ‘‘marés barométricas’’. Nenhuma destas contestações convenceu Lattes: ‘‘Eu só abandonei o assunto por que me encheram demais o saco com aquela discussão toda e eu tinha coisas mais importantes para fazer na época. Hoje ganha-se muito dinheiro explorando a Teoria da Relatividade. Eu sempre tive certeza que existem pontos inconscientes no pensamento de Einstein. Mas falar disso é despertar a ira de muitas instituições, gerar muita polêmica - o que só dá muito trabalho e pouco resultado prático. Depois, para concluir minha experiência eu ainda precisava trabalhar com equipamentos mais sofisticados, e isso demanda verba de pesquisa, burocracia, todas estas coisas. Foi por isso que, diante daquela confusão toda, preferi me dedicar aos meus outros trabalhos’’, diz.
Agora, aposentado e tranquilo (‘‘tenho nove netos e quero um pouco de sossego’’, diz), Lattes voltou a se estimular depois do trabalho de Waldyr. Afinal, a existência de ondas superluminais é o indício mais óbvio de que realmente podem ocorrer diferenças de registro nas emissões das ondas de luz. Por isso, Lattes admite que a qualquer hora pode retomar aquele seu antigo experimento. ‘‘Afinal o próprio Waldyr oferece agora instrumentos para que eu conteste a contestação que ele me fez’’, sorri, irônico. (P.S.M.)

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