Sharon Begley e Mary Hager
Newsweek
Você ergue seu filho recém-nascido para que os olhos dele fiquem a poucos centímetros do papel de parede decorativo. Um neurônio de sua retina faz ligação elétrica com outro, no córtex visual de seu cérebro. Você toca delicadamente a palma dele com um pegador de roupa; ele o agarra, deixa-o cair, e você o devolve com suaves palavras e um sorriso. Neurônios de sua mão fortalecem sua conexão com os existentes em seu córtex sensitivo-motor. Ele chora à noite. Você o alimenta encarando seu olhar de perto, pois a natureza fez com que a distância existente entre o braço dobrado dos pais e seus olhos corresponda exatamente à distância dentro da qual um bebê consegue focalizar. Neurônios na amígdala do cérebro enviam impulsos de eletricidade através dos circuitos que controlam a emoção. Você o segura no colo e fala... e neurônios de seus ouvidos começam a criar conexões com o córtex auditivo.
E você pensou que estava só brincando com seu garoto.
Quando um bebê vem ao mundo, seu cérebro é uma miscelânea de neurônios, todos procurando ser tecidos e se tornar algo na complexa trama da mente. Alguns neurônios já foram conectados – pelos genes do óvulo fertilizado – com os circuitos que comandam a respiração ou controlam os batimentos cardíacos, regulam a temperatura do corpo ou produzem reflexos. Mas trilhões de neurônios são como os chips Pentium num computador antes que a fábrica pré-carregue o software. São circuitos puros, de potencial quase infinito e não-programados, que podem um dia compor música ou fazer cálculos, eclodir em fúria e se derreter de êxtase. Se os neurônios são usados, integram-se na fiação do cérebro conectando-se com outros neurônios; se não são usados, podem morrer. São as experiências da infância que determinam quais neurônios são usados, as que interligam os circuitos do cérebro, da mesma forma como um programador com um teclado reconfigura os circuitos num computador. As chaves acionadas – as experiências que a criança tem – determinam se ao crescer ela vai ser inteligente ou obtusa, medrosa ou autoconfiante, se terá facilidade de expressão ou língua presa. As experiências iniciais são tão marcantes ᖠdiz o neurobiólogo pediatra Harry Chugani, da Universidade Estadual Wayne –, que ‘‘podem alterar totalmente o que a pessoa vai ser mais tarde.’’
Na idade adulta, o cérebro está interligado por mais de 100 bilhões de neurônios, cada um alcançando milhares de outros de modo que, em seu conjunto, o cérebro tem mais de 100 trilhões de conexões. São estas conexões – mais que o total de galáxias no universo conhecido – que dão ao cérebro seus poderes sem par. A opinião tradicional dizia que o diagrama da fiação é predeterminado, como o de uma casa nova, pelos genes no óvulo fertilizado. Infelizmente, embora metade dos genes – 50 mil – participe do sistema nervoso central de alguma forma, seu número não é suficiente para especificar a incomparavelmente complexa fiação do cérebro. Isto deixa em aberto outra possibilidade: os genes poderiam determinar apenas os principais circuitos do cérebro, e algo mais moldaria os trilhões de conexões mais refinadas. Este algo mais é o meio ambiente, a miríade de mensagens que o cérebro recebe do mundo exterior. Segundo o paradigma incipiente, existem ‘‘dois amplos estágios na fiação do cérebro’’, diz a neurobióloga especialista em desenvolvimento, Carla Shatz, da Universidade da Califórnia em Berkeley: – o período inicial, quando a experiência não é necessária, e um posterior, em que ela é.’’
Ainda assim, depois que o cérebro implanta sua fiação, existem limites para a capacidade que ele tem de se criar. Limites de tempo. Chamados ‘‘períodos críticos’’, eles são janelas de oportunidade que a natureza abre e que começam antes do nascimento, e que ela vai fechando, uma após outra, a cada velinha que aumenta no bolo de aniversário da criança. Nos experimentos que deram origem a este paradigma nos anos 70, Torsten Wiesel e David Hubel descobriram que costurar as pálpebras fechando o olho de um gatinho recém-nascido alterava a fiação de seu cérebro: eram tão poucos os neurônios conectados desde o olho fechado até o córtex visual, que o animal ficou cego antes mesmo de seu olho ser reaberto.
Esta mudança na fiação não ocorreu em gatos adultos cujos olhos foram fechados. Conclusão: existe um breve período inicial em que circuitos ligam a retina ao córtex visual. O período em que as áreas cerebrais amadurecem determina o tempo em que elas permanecem maleáveis. Áreas sensoriais amadurecem no começo da infância; o sistema límbico emocional recebe a fiação na puberdade; os lóbulos frontais – centro do entendimento – se desenvolvem pelo menos até os 16 anos de idade.
As implicações deste novo conhecimento são ao mesmo tempo promissoras e desconcertantes. Elas sugerem que, com o imput certo no tempo certo, quase tudo é possível. Mas também indicam que, se você perder a janela, está contribuindo para uma deficiência. Elas explicam por que os avanços que um moleque faz no programa Head Start muitas vezes desaparecem: esta instrução intensiva começa tarde demais para reordenar fundamentalmente a fiação do cérebro. E mostram claramente que é um erro adiar o ensino de um segundo idioma para uma idade posterior. A propósito, Chugani perguntou: ‘‘Qual foi o idiota que decidiu que o ensino de uma língua estrangeira só deve começar no colegial?’’
Os neurobiólogos ainda estão no início da compreensão exata do tipo de experiências, ou imput sensorial, que instala a fiação do cérebro, e de que modo. Eles sabem muito do circuito da visão. Ele tem um surto de crescimento dos neurônios entre os dois e os quatro meses de idade, o que corresponde ao período em que os bebês começam realmente a perceber o mundo, e atinge seu auge aos oito meses, quando cada neurônio é conectado ao assombroso total de 15 mil outros neurônios. Um bebê cujos olhos são toldados pela catarata desde o nascimento vai continuar cego pelo resto da vida, mesmo após a remoção cirúrgica da catarata aos 2 anos. No caso de outros sistemas, os pesquisadores sabem o que acontece, mas não – ao nível de neurônios e moléculas – como. Ainda assim, confiam que as habilidades cognitivas funcionam de modo bem semelhante às sensoriais, pois o cérebro é parcimonioso na administração de seus negócios: um mecanismo que funciona tão bem na fiação que propicia a visão, provavelmente, não é abandonado quando se trata de circuitos para a música. ‘‘As conexões não se formam espontaneamente, mas são promovidas pela atividade’’, diz Dale Purves, da Universidade Duke.Experiências adquiridas na infância são determinantes para o desenvolvimento dos neurônios que formam uma complexa e poderosa trama
ReproduçãoAs experiências da infância determinam quais neurônios serão usados, da mesma forma que um programador com um teclado reconfigura os circuitos num computadorReproduçãoNeurônios são circuito puros, de potencial infinito e, originalmente, não programados que um dia poderão fazer cálculos ou compor música

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