Em julho do ano passado, Ian Clarke, um estudante de computação da Universidade de Edimburgo, bolou a rede mais anárquica do mundo e deu-lhe o nome de Freenet Project. Sua missão principal é promover o fluxo livre e gratuito de informação entre quem quer que seja, a respeito de qualquer assunto, invisivelmente. Autores e leitores de documentos podem permanecer totalmente anônimos, se assim desejarem.
Diferentemente da Internet, a Freenet não usa o conceito de nome de domínios e dispensa totalmente a presença de órgãos reguladores. Qualquer pessoa com conexão permanente com a rede pode ser um provedor, sem que ninguém fique sabendo disso ou sequer possa descobrir onde o computador se encontra fisicamente.
E por que alguém faria do seu micro um servidor da Freenet? Apenas para promovê-la, facilitando o acesso a outros usuários da comunidade. Não dá para ganhar dinheiro com essa rede, pois não se pode comprovar a identidade de quem a frequenta. Por que alguém se interessaria em ser um usuário da Freenet? Para postar ou ler, anonimamente, arquivos que seriam considerados proibidos se divulgados abertamente.
A rede permite livre troca de arquivos e poderá enterrar de vez o copyright. O senão é a dificuldade de achar documentos devido à descentralização. Basicamente, a Freenet é um sistema de distribuição inteligente de arquivos, copiando-os para onde eles são mais requisitados. A disponibilidade é proporcional à demanda.
Não dá para falar em regiões geográficas, pois nessa rede o conceito de distância tem mais a ver com o número de ‘‘pulos’’ da informação entre a origem e o destino do que com a quilometragem. Assim, é possível que os documentos sobre a condição das mulheres afegãs sirvam melhor aos usuários interessados no México se estiverem presentes em máquinas servidoras na Espanha. Não se pode controlar este mecanismo na Freenet.
Outra coisa que não se pode fazer, pelo menos por enquanto, é apagar arquivos, mesmo que você seja o autor; no máximo, pode-se inserir uma revisão do documento. A razão técnica para isto é simples: o sistema não sabe que foi você quem criou o documento. Mesmo que sua máquina seja um servidor da Freenet e você resolva desligá-la, o servidor mais próximo já terá uma cópia do arquivo.
A consequência inevitável disso é que nenhum governo ou entidade será capaz de banir da Freenet qualquer documento que considere subversivo ou ilegal. O resultado técnico da tentativa de apagar documentos é o aumento de sua disseminação, tornando-os mais populares. O lado bom disso é que, se você estiver denunciando violações de direitos humanos, por exemplo, as partes denunciadas não conseguirão fazer uma faxina ideológica na rede.
A Freenet representa o ideal da liberdade de expressão. E o máximo da privacidade. Mas há aí um lado sombrio. E se ela for escolhida como o canal perfeito para terroristas, torturadores, traficantes, racistas e pedófilos divulgarem seus arquivos? A resposta está na ponta da língua de Clarke. ‘‘Não há liberdade de expressão sem que se tolere a expressão daqueles com quem você pessoalmente não concorda’’, diz. Por princípio, a Freenet trata toda informação como algo desprovido de classe ou moral intrínsecas. Ela existe para nos servir.
Polêmicas particulares à parte, a Freenet também representa, potencialmente, o fim do copyright. Perto dela, o Napster é fichinha. Os incríveis e temíveis arquivos MP3 poderão flutuar graciosamente de um oceano a outro da rede sem que ninguém (leia-se a RIAA) possa afundá-los ou a seus diletos ouvintes.
Programas, obras de arte, livros e filmes também serão de todos, uma vez dentro da Freenet. A única forma de um arquivo ser apagado é cair no esquecimento dos usuários, dando lugar aos mais recentes (se o problema for espaço). E quanto ao sexo na Freenet? Não se sabe, não – afinal, a vasta oferta erótica na Internet é voltada para o consumo pago.
Parece que não há como parar essa rede, uma vez posta em operação. Ela é resistente a ataques do tipo que hoje afetam a World Wide Web. Mesmo se Ian Clarke for varrido do mapa, ela continuará, pois é um trabalho feito em colaboração e aberto, como o GNU/Linux.
A Internet só conquistou o grau atual – e relativo – de liberdade porque na época em que fez ‘bum!’ as grandes corporações não tinham a menor noção de seu potencial e deixaram seus criadores agirem em paz. Se o mesmo acontecer com a Freenet, o mundo em breve terá que se defrontar, discutir e resolver abertamente a questão da liberdade de expressão. Durante este período incerto de incubação, o grande perigo para a Freenet é que ela se torne um símbolo de marginalidade, de submundo, cujos usuários sejam tachados de anárquicos, caricaturas vivas de filmes de bandido e mocinho.