Pouco antes de Einstein morrer, em 18 de abril de 1955, aos 76 anos, uma enfermeira foi colocada em seu quarto, para que velasse o seu sono. O cientista acordou, olhou para a moça e balbuciou suas últimas palavras para o mundo. Em alemão, língua que a garota não entendia. Na mesa de cabeceira, uma página de cálculos inacabados de seu sonho: a teoria do campo unificado. Não ser compreendido (embora fosse idolatrado), em vida e na morte, foi a maldição do homem que, nos primeiros 15 anos do século 20, virou a física newtoniana de ponta-cabeça, mostrou a equivalência entre massa e matéria e revelou novos parâmetros de tempo, espaço e gravitação.
Gênios não se explicam, mas podem ser melhor compreendidos um bocadinho, se analisados à luz de suas contradições tão humanas. É o que faz Denis Brian em ‘‘Einstein: A Ciência da Vida’’ (Editora Ática, 576 páginas, R$ 34,90), biografia do cientista que se beneficiou da abertura de seus arquivos pessoais, por anos guardados a sete chaves. Transformado em ícone sagrado, Einstein foi fatiado para a posteridade: partes de seu cérebro e seus olhos fazem parte do acervo de médicos americanos.
‘‘Ele fez várias descobertas sobre o universo, que o deixaram perto de entender como se deu a criação, algo suficiente para que a imprensa e o público o vissem como tendo uma linha direta com o Criador’’, explica Denis Brian. Até hoje. Afinal, quantos leriam a biografia de Bohr ou Planck, apesar da importância dos dois? Quem não se interessaria pela de Einstein?
ReproduçãoEinstein e Oppenheimer: os pais da bomba atômica
‘‘O apelo popular de Einstein foi, em boa parte, construído pela mídia’’ diz. ‘‘Mas ele também foi um ideal para pessoas sem ideais, pois nunca se restringiu ao seu trabalho, como os colegas, e teve notável atuação contra os nazistas (que ofereceram 20 mil marcos para quem o matasse), e a favor do humanismo.’’ A inquietação vinha da infância. ‘‘Ao contrário do que já se disse, ele não era mau aluno, mas odiava o autoritarismo dos professores, contra os quais se rebelava, e achava o ensino da época vazio.’’
Aos 12 anos, decidiu resolver o ‘‘enigma do universo’’ e, em 14 anos, começou a cumprir a promessa. Na Suíça, trabalhando num escritório de patentes, com mulher e filho para sustentar, escreveu a ‘‘Teoria da Relatividade Especial’’ e deduziu a fórmula em que provava haver, em todas as coisas, uma quantidade imensa de energia a ser liberada: energia era igual a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Hoje crianças conhecem essa fórmula.
ReproduçãoEm 1955, o velho cientista no ano de sua morteNo entanto, seus contemporâneos não entenderam o que aquilo significava. Essa foi, aliás, uma das razões que fez com que o cientista fosse indicado oito vezes, ao longo de onze anos, para um Nobel e só o conseguisse, em 1922, pelo seu ensaio sobre o efeito fotoelétrico, e não pela Relatividade. Além disso, havia o preconceito anti-semita (que ele também sofreu por parte de seus colegas) da comissão do Prêmio’’, conta Brian.
A experiência amarga aproximou-o da causa sionista (mais tarde, quando o Estado de Israel foi criado, Einstein foi convidado a assumir a presidência do novo país, mas rejeitou) e levou-o a uma intensa militância política. ‘‘Até a ascensão de Hitler, em 1933, ele era um pacifista, mas depois, mais realista, chegou a dizer que as democracias precisavam se armar para sobreviver’’, fala. ‘‘Não era, porém, um ingênuo, como muitos queriam crer; Einstein livrava-se de preconceitos e ia direto ao centro da questão, preocupado em resolvê-la, algo típico dos idealistas.’’
Foi nesse espírito, acredita o biógrafo, que escreveu a carta ao presidente Roosevelt, alertando-o do perigo dos nazistas conseguirem a bomba atômica, algo que ‘‘exigia uma ação rápida’’. Pouco depois, nascia o Projeto Manhattan, responsável pelas primeiras ogivas nucleares. ‘‘Entre a sua célebre fórmula e a possibilidade de partir átomos de urânio passaram-se 25 anos e não há razão para responsabilizá-lo.’’
‘‘Ainda assim, não posso imaginar outra figura capaz de influenciar Roosevelt a ordenar a feitura da bomba’’, completa Brian. Isso já o sabia Picasso, que foi implacável com o cientista: ‘‘Foi o gênio brilhante de Einstein que nos levou a Hiroshima’’, escreveu. ‘‘Einstein estava consciente da responsabilidade dos pesquisadores, porém o seu lado prático de idealista viu a necessidade de impedir os nazistas e salvar a civilização.’’ Não deixa de ser uma forma de entender a frase do gênio da Física: ‘‘Política é para o presente; uma equação é para a eternidade’’.
Mais preocupado com o presente, Edgard Hoover, diretor do FBI, colecionou um dossiê com 1,6 mil páginas sobre o gênio. ‘‘É lixo puro na sua maior parte, pois os agentes nem mesmo sabiam direito onde ele morava, e Hoover morria de medo de chamá-lo a depor, por causa das suas amizades influentes.’’ O livro de Brian também desvenda alguns enigmas da vida pessoal de Einstein. Entre esses, o destino da filha Liserl, de seu casamento com a também física Mileva Maritsch. ‘‘Ela engravidou antes de eles se casarem e para evitar o escândalo - a Suíça era um país puritano - eles deram a recém-nascida para um casal da Sérvia e nunca mais se ouviu falar dela.’’
Cientista brilhante, Einstein não era o melhor dos pais de família. ‘‘Mileva ajudou-o na Relatividade, mas depois se concentrou na família e ficou uma mulher amargurada.’’ E não foi só: o filho Edward, desprezado pelo pai, transformou-se num esquizofrênico que o odiava.
‘‘Sua secretária dizia que ele não fora feito para casar, apenas para ter amantes, o que ele, sem dúvida, teve às dúzias, pois adorava flertar com elas, num jeito cavalheiresco antiquado que as encantava’’, conta. O que não o impediu de impôr um contrato humilhante a Mileva, em forma de carta (com observações sobre seus deveres domésticos, obediência silenciosa e que de ele não deveria esperar afeto nenhum), e de dizer: ‘‘Nas mulheres, Deus criou um sexo sem cérebro.’’ Nem sempre ele era genial.
Além das damas, adorava tocar seu violino. ‘‘Em especial compositores matemáticos como Mozart; excessivamente emotivo, não suportava músicos como, por exemplo, Tchaikovski.’’ Tampouco gostava de viajar. ‘‘Se rodou o mundo, também visitando o Brasil, em 1925, foi em boa parte para ficar longe de Mileva e do casamento em crise.’’ Colecionando sucessos, no fim da vida viu-se obcecado pela teoria do campo unificado, em que pretendia relacionar as propriedades universais da matéria e da energia numa única equação, apesar de todas as provas experimentais contra essa possibilidade e o descrédito dos colegas.
‘‘O grande talento de Einstein, além da genialidade, era a sua obsessão cega por manter-se fiel às suas crenças; como em toda a sua vida ele sempre criou a partir de teorias que só mais tarde foram comprovadas por experiências, achou que isso também valeria para o campo unificado’’, avalia Brian. Nunca, porém, acreditou em viagens pelo tempo.
E, é claro, sempre detestou religiões organizadas pelo homem. ‘‘Toda vez que fala em Deus, é como metáfora para explicar algo complexo, uma força misteriosa, para as pessoas comuns: dizia que, mesmo que visse um fantasma, não acreditaria na sua existência.’’ No entanto, não se pode chamar de ateu a quem confessou: ‘‘Não posso provar que estou certo em algo, mas essa é a minha religião.’’ReproduçãoEinstein em 1912: fase da criação da Relatividade GeralCarlos Haag
Agência Estado

mockup