O inimigo mora ao lado
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de abril de 1998
Paulo San Martin e Alessandra Campos Especial para Folha Ciência 
Milton DóriaSistema de ar condicionado do Cine Teatro Ouro Verde, em Londrina, um dos primeiros a serem instalados no Estado: aparelho não oferece riscos se tiver limpeza periódicaA bactéria que matou o ministro das Comunicações Sérgio Motta ameaça diariamente milhares de pessoas em todas as cidades brasileiras. Trabalhadores que exercem suas funções em locais fechados, com ventilação artificial, e famílias que substituem o ar natural da casa pelo condicionado, estão sob risco permanente de se infectar pela mesma doença. A falta de limpeza nos equipamentos de ar condicionado acumula sujeira no aparelho. Ele se transforma em um verdadeiro meio de cultura para a proliferação de bactérias e fungos, que são lançados em profusão no ar ambiente. É um canal aberto para a transmissão de doenças, garante o médico alergista e imunologista, José Roberto Vidotto.
Para o dono da mais antiga fábrica de instalação de ar condicionado de Londrina, o empresário José Antonio Gardoqui, esta ameaça tem proporções alarmantes na cidade. Há 30 anos em Londrina, Gardoqui, que trocou a Espanha (nasceu em Madri) pelo Paraná, garante que apenas 5% dos aparelhos de ar condicionado têm manutenção adequada na cidade. Aqui no Brasil, o sistema é pior que uma lixeira. A maioria das pessoas só faz manutenção no equipamento quando ele quebra, destaca.
Arquivo FolhaO advogado Miguel Bompeixe Kohler: cruzada contra a falta de limpeza
Apesar de comercializar aparelhos de ar condicionado, Gardoqui reconhece seus perigos. O equipamento é como uma faca. Tem grande serventia, mas também pode ser uma arma. Para ser útil é preciso que tenha uma instalação adequada e manutenção preventiva e permanente, afirma. Tecnicamente, o ar condicionado é como um aspirador de pó. Ele suga todas as impurezas que circulam no ar. Parte dessa sujeira se acumula no aparelho e, como não há renovação do ar, outra parte volta para o ambiente. É um aparelho que, como qualquer máquina, requer cuidados e limpeza periódica, explica.
Do alto de suas três décadas de experiência - ele começou a trabalhar no ramo em 1954 e ajudou a implantar o equipamento no Cine Teatro Ouro Verde em Londrina o primeiro cinema a ter ar condicionado na região e, possívelmente, no Estado - Gardoqui alerta para a importância da instalação correta e limpeza periódica dos aparelhos. No Brasil, onde não existem regras rígidas de controle, não há mais que 30% de equipamentos corretamente instalados, afirma. Segundo ele, as normas determinadas pelo Ministério da Saúde são muito vagas. E, como todas as leis no país, não são respeitadas, avalia.
A falta de consciência, em alguns casos, é extrema. No início deste mês, Gardoqui foi convidado pelo Ministério da Saúde para fazer uma vistoria nos equipamentos de ar condicionado do Hospital Geral de Cascavel. O prédio estava enfrentando problemas com o sistema de ar condicionado e a diretoria decidiu pedir ajuda ao Ministério. Junto com três engenheiros do governo Federal, o empresário foi avaliar as instalações do hospital. Fiquei surpreso com o que encontrei. A tubulação do sistema estava concluída apenas parcialmente e cheia de sujeira. Se essa situação fosse verificada nos Estados Unidos ou na Europa o hospital, com certeza, seria interditado, afirma.
A situação deixou Gardoqui indignado. Isso é um crime. Imagine uma sala cirúrgica, onde o ar não é renovado e cheio de bactérias e fungos?. A explicação dele é simples e serve com um alerta às autoridades de saúde do país. Um doente com tuberculose é operado. No outro dia, um outro paciente entra na mesma sala para fazer uma cirurgia no fígado e corre o risco de sair de lá com tuberculose, afinal o ar que ambos respiraram é o mesmo, cheio de impurezas, devido à falta de manutenção adequada do equipamento.
Segundo o médico do trabalho, Edcesar Vicente Leite, os centros cirúrgicos exigem cuidados especiais e, por isso, há uma preocupação maior por parte dos hospitais não só em relação à manutenção do sistema de ar condicionado. O ambiente é asséptico e esterilizado. Para entrar nesse local, a pessoa precisa vestir roupa cirúrgica, lavar as mãos, colocar máscaras e gorros. São medidas preventivas para se evitar qualquer tipo de contaminação. É claro que isso não é o suficiente. O ar também precisa estar em ordem- esclarece.
O advogado e ex-juiz de Londrina, Miguel Horst Bompeixe Kohler, que há cinco anos moveu uma verdadeira cruzada, em Londrina, contra a falta de manutenção dos equipamentos de ar condicionado, coloca em dúvida a preocupação dos hospitais com relação à limpeza de seus aparelhos. O problema é que os hospitais menores não têm central de ar condicionado. Normalmente, possuem equipamento só na sala cirúrgica, onde a assistência técnica não é feita periodicamente, afirma.
Bompeixe Kohler, no início dos anos 90, chegou a pedir a retirada do ar condicionado do Fórum de Londrina, caso não fosse contratado um serviço adequado de manutenção. Suas idéias, na época, chegaram às páginas dos principais jornais do Estado. Os problemas que o ar condicionado causa à saúde são largamente conhecidos e muito antigos. É um absurdo que só agora, com a doença que matou o ex-ministro, as instituições comecem a se preocupar, dispara. Aliás, de acordo com ele, o problema em Brasília adquire as proporções de um caso de polícia. A umidade relativa do ar daquela cidade é muito baixa, com ar rarefeito e seco. Isso ocasiona maior probabilidade de contaminação. O pior é que viver sem um ar condicionado lá é quase impossível. No entanto, o mesmo descuido que se vê com os equipamentos em Londrina, também se observa lá, relata. Por isso, para ele, a morte de Sérgio Motta não foi por acaso. Muita gente já teve problemas de saúde semelhantes, mas só agora resolveram divulgar o assunto e polemizar. Se o Sérgio Motta fosse um Zé Ninguém, certamente, tudo acabaria como antes, conclui.


