O computador chega à aldeia
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segunda-feira, 07 de dezembro de 1998
Agência O Globo 
Muito raramente é quebrada a quietude na aldeia Sapukai, espetada entre um punhado de montes em Bracuí, a 22 quilômetros de Angra dos Reis. Ali, cerca de 400 guaranis sobrevivem como podem da caça de um preá, do artesanato ou da plantação do que conseguir vingar numa terra quase sem préstimo. O sossego da aldeia foi abalado há algumas semanas com mais uma novidade trazida da cidade. Desta vez apareceu por lá um objeto nunca visto antes por ninguém da tribo: um microcomputador.
Quando surge um assunto que pode afetar a vida na aldeia, só o conselho de líderes, chefiados pelo cacique João da Silva Veramiri, de 87 anos, pode tomar uma decisão. A questão da semana passada foi dar um nome na língua guarani às máquinas que chegaram dias antes para serem instaladas na aldeia Sapukai.
A tarefa era especialmente difícil, já que o cálculo não faz parte da cultura daqueles índios. Mas eles saíram-se bem: Caixa para acumular a língua, ou ayu ryrurive , foi o nome escolhido.
A urgência na decisão era necessária porque a aldeia tornou-se semana passada a primeira do país a ter um curso de computação para seus habitantes. Foi criada ali mais uma escola montada com máquinas encaminhadas pela ONG (organização não-governamental) Comitê para Democratização da Informática (CDI), numa parceria com a Funai e o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), grupo ligado à CNBB.
O CDI existe há mais de três anos, encaminha doações de computadores - no caso da Sapukai foram cinco 486, quatro para a aldeia, um para o posto do Cimi - e trabalha com voluntários. Já montou 78 escolas em todo o país; 47 só no Rio de Janeiro, as demais em oito estados.
O cacique e seus líderes também decidiram: os primeiros a aprender a usar o PC serão os professores da escola e os agentes de saúde, todos índios. O passo inicial é domar a máquina. As próximas etapas serão as de criar projetos que ajudem o dia-a-dia na aldeia: desenvolver, por exemplo, bancos de dados com a história do povo para a escola; cadastrar crianças no posto de saúde; e fazer a contabilidade dos projetos econômicos que estão para serem implementados pelo pessoal da tribo por meio da Associação Comunitária Indígena do Bracuí, presidida pelo vice-cacique Luiz Eusébio Karaí.
A principal dificuldade enfrentada pela escola hoje é a falta de eletricidade. O gerador de energia não dá conta de todas as máquinas e por isso só se pode ligar dois micros de cada vez. O projeto de captação de energia solar ainda não tem verba.
O treinamento dos primeiros usuários, que se tornarão agentes multiplicadores, começou há cerca de um mês. Um dos professores da escola fundamental da tribo, Ernesto da Silva, esteve uma semana no Rio praticando. Outros receberam treinamento do pessoal do CDI na própria aldeia, antes da inauguração da escola. Semana passada, quando o curso foi oficialmente aberto, com o nome de Escola para ajudar a memória (ou arandu pyty vôã), quem tivesse curiosidade poderia experimentar o computador.
Entre os voluntários, a indiazinha Sueli, de 15 anos, que pouco depois participaria com mais 15 meninos e meninas da Dança da Criança, um ritual religioso de agradecimento aos espíritos.
Sueli pegou com desenvoltura o mouse - ou melhor, o anguja, que é como se diz rato em guarani - e começou a colorir o desenho de uma casa, feito anteriormente por um outro índio durante o treinamento, representando a aldeia. Sobre a experiência de usar uma máquina tão diferente, disse sem pestanejar: É fácil.
De acordo com Mariangélica Herdy, responsável pela área de informática educativa da ONG, usar o mouse para desenhar com o Paint é tarefa das mais simples para os índios: A cultura deles está muito ligada à imagem; os primeiros desenhos que vi de um aluno, representando um arco e uma flecha, eram impressionantes, ela conta. A dificuldade maior é a de usar o teclado, já que eles não têm o hábito de escrever e tampouco de digitar.
Uma vez decidido que nome dar às coisas, o passo seguinte foi oficializar o curso. Como a escola poderia mudar o jeito de ser guarani - o Nhanderekó - estava criado outro assunto para ser discutido pelos líderes da nação. Pelo que conta o cacique João, a sentença não foi difícil: A maioria das pessoas da tribo acha importante; o cacique deve fazer o que a maioria quer, encerra o assunto, dando sua própria lição de democracia.DivulgaçãoInicianteO primeiro contato da indiazinha guarani Sueli, que recebe a ajuda de um professor, com um micro: Foi fácilGuaranis batizam equipamento de caixa para acumular a língua e começam a ter noções de informática


