O 'bug' que vem do espaço
Carlos Orsi Martinho Agência Estado
Se você acha que o único problema das redes de telecomunicação e informática para o ano 2000 é o bug provocado pelos sistemas de informática que só aceitam anos com dois dígitos - e que não sabem o que fazer com um ano 00 - olhe de novo: há outra ameaça a caminho, e esta não pode ser resolvida por um analista de sistemas. Ela vem diretamente do Sol.
Pode ser apenas mais uma ironia apocalíptica, mas o fato é que o Sol atingirá o pico de seu ciclo de atividade magnética em algum momento entre janeiro e abril de 2000.
Nesses picos, que ocorrem uma vez a cada dez ou onze anos (o último foi em 1989), a estrela em torno da qual todos giramos cospe nuvens de gás hiper-aquecido rumo ao espaço. Com o gás vão partículas dotadas de carga elétrica, e poderosos campos magnéticos. Durante o último pico de atividade solar, em 89, houve um gigantesco blecaute na América do Norte, atingindo a Costa Leste dos EUA e partes do Canadá.
Uma imagem comum é comparar essas tempestades solares a um vendaval, e o campo magnético da Terra a grama alta. Quando o vento atinge o gramado, ocorre todo tipo de movimento e ondulação entre as folhas. Esse tipo de alteração no campo magnético do planeta é um problema para os três componentes principais das redes atuais de telecomunicações: satélites, partes eletrônicas, ondas de rádio.
No caso dos satélites, teme-se que os ventos solares sejam intensos o suficiente para alterar-lhes as órbitas; os componentes eletrônicos podem simplesmente queimar, já que o movimento da campos magnéticos tende a gerar corrente elétrica (é assim que as usinas hidrelétricas funcionam). Quanto às ondas de rádio, alterações na ionosfera - a camada eletricamente carregada da atmosfera terrestre - podem produzir todo tipo de interferência.
A questão das correntes elétricas é a que causa mais preocupação: é um fato provado que o movimento de campos magnéticos gera corrente elétrica dentro de qualquer material condutor de eletricidade próximo. Durante uma tempestade magnética intensa, qualquer condutor - de fios de telefone a trilhos de trem - pode, de repente, virar um cabo elétrico. Foi um efeito assim que causou o grande blecaute de 1989.
É possível que esses ciclos do Sol venham acontecendo desde o início dos tempos, mas a humanidade só começou a prestar atenção neles há cerca de dois séculos; até hoje, 22 dessas alterações foram verificadas. A próxima está sendo chamada, por isso, de Ciclo 23.
O primeiro ciclo a causar danos sérios foi o 22, de 1989. Agora, cientistas e engenheiros apertam os cintos de segurança, com medo do Ciclo 23. Isso não significa que o Sol esteja se tornando mais violento. Isso significa, sim, que nossa dependência de sistemas elétricos e magnéticos cresceu muito nos últimos 200 anos.
Não foi o Sol que ganhou fúria - nós é que criamos uma civilização vulnerável a esse tipo de coisa, assim como é vulnerável aos computadores que não conseguem entender um ano terminado em 00. E, se não temos como fugir do bug solar, temos, pelo menos, como saber que o problema está a caminho: satélites vigilantes deverão avisar a Terra de que um maremoto magnético vem vindo, e com até meia hora de antecedência.
Que o pico do ciclo solar ocorreria em algum momento entre 1999 e 2001 já era sabido, uma vez que esses picos acontecem a cada dez ou onze anos. Mas foi apenas durante a última reunião da Sociedade Astronômica Americana, que aconteceu em Chicago, que cientistas apresentaram a janela mais provável para o evento: de janeiro a abril de 2000.O Sol atingirá pico de atividade magnética entre janeiro e abril do ano 2000. Isto trará consequências à Terra
France PresseÚltimo pico de atividade solar, em 1989, causou blecautes nos Estados Unidos e Canadá. No ano 2000,campo magnético do planeta será atingido outra vez





