O Brasil pesquisa a vacina genética contra a tuberculose
Vera Rita da Costa
Ciência Hoje
A tuberculose mata cerca de 3 milhões de pessoas por ano no mundo. Nem os antibióticos disponíveis nem a vacina BCG são capazes de conter o avanço da doença, que continua impondo riscos à humanidade. Mas o problema pode ter solução, caso a vacina genética desenvolvida por um grupo de pesquisadores brasileiros se mostre eficaz. Produzida a partir de genes da bactéria causadora da tuberculose, a vacina foi testada em animais e mostrou-se capaz de prevenir o desenvolvimento da doença e eliminar a infecção. Caso seja aprovada para uso em humanos, uma nova arma contra a tuberculose espera-se que seja poderosíssima entrará em ação.
As razões para comemorar o feito dos pesquisadores brasileiros são muitas: segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de um terço da população mundial está infectada pelo agente causador da doença, o Mycobacterium tuberculosis. Ele é responsável por 8 milhões de casos anuais, sendo que o número de vítimas fatais corresponde a 25% das mortes evitáveis registradas no mundo.
Embora se observe um aumento da ocorrência de tuberculose em todo o mundo, a situação é ainda mais grave nos países pobres, onde estão 95% dos casos registrados atualmente. Os motivos, dizem os especialistas, são as altas concentrações populacionais que facilitam a disseminação da doença através das gotículas do espirro de pessoas contaminadas. Países como a Índia, cuja população é de 2 bilhões de habitantes, estão entre os recordistas mundiais de tuberculose. O Brasil está na 15ª posição, com cerca de 85 mil novos casos da doença por ano.
No Brasil, São Paulo é o Estado que apresenta o maior número de contaminados, cerca de 18 mil por ano. Mas quando se analisa a incidência da tuberculose em relação ao tamanho da população, as situações mais críticas se encontram no Amazonas e no Rio de Janeiro, informa a médica Vera Maria Neder Galesi, coordenadora do Programa de Controle da Tuberculose, da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.
Um dos fatores que dificultam o controle da tuberculose pelos métodos tradicionais é a necessidade de um tratamento prolongado, que dura cerca de seis meses, e envolve o uso de medicação diária. Não adianta apenas tratar o doente; é preciso curá-lo com rigor, afirma Galesi. Segundo a médica, os pacientes, ao se sentirem melhor, abandonam o tratamento e a doença se manifesta novamente, infectando outras pessoas. E as bactérias sobreviventes tornam-se cada vez mais resistentes às drogas disponíveis no mercado.
A situação é tão grave que o governo do Estado de São paulo está implantando o serviço de medicação assistida em regiões de alta incidência da doença. Nesses locais, o paciente vai diariamente ao posto para tomar a medicação fornecida pelo Ministério da Saúde ou recebe a visita diária de agentes de saúde que administram o medicamento. Apesar de surtir efeito, a medida ainda é restrita: ela exige um sistema de saúde bem organizado, o que infelizmente não se encontra em todos os municípios, avalia Galesi.
Por essas e outras razões, o desenvolvimento da vacina genética na Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, está gerando expectativa nos especialistas mundo afora. A vacina de DNA permitiria evitar o estabelecimento da tuberculose, eliminar a infecção causada pelo bacilo e curar casos crônicos ou mesmo aqueles em que a doença já está disseminada. Estima-se que a novidade, usada em conjunto com os medicamentos atualmente disponíveis, reduza o tempo de tratamento para até dois meses.
As pesquisas em Ribeirão Preto começaram em 1990 quando o imunologista Célio Lopes Silva foi para o exterior fazer seu pós-doutorado. Naquela época conta o pesquisador já se sabia que as vacinas chamadas BCG (Bacilo Calmette-Guérin), baseadas em Mycobacterium bovis atenuado ou em antígenos purificados, não conferiam proteção satisfatória contra a doença. Uma série de dificuldades, no entanto, impedia o desenvolvimento de uma nova vacina. A principal era o fato de o bacilo da tuberculose se esconder dentro das células e não ser atingido pelos anticorpos. Apenas estimulando os linfóticos T CD8, capazes de destruir especificamente as células infectadas pelos bacilos, chegaríamos a outra vacina. Para fazer isso, no entanto, seria necessário produzir os antígenos dentro das células, como acontece com as infecções, relata o pesquisador.
Delineado o princípio da vacina, Lopes Silva e sua equipe usaram as técnicas de engenharia genética para contornar as dificuldades e chegaram ao alvo desejado. Eles retiram genes do bacilo da tuberculose que contêm a mensagem para a célula produzir antígenos, que vão induzir uma resposta imune contra a doença. Esses genes foram introduzidos em bactérias Escherichia coli, ligados a plasmídeos. Essas bactérias foram reproduzidas em grandes quantidades em laboratório; os plasmídeos foram isolados e utilizados para inoculação via intramuscular em camundongos (ver ilustração nesta página).
No organismo dos animais, os plasmídeos estimularam a produção de proteínas antigênicas em células do sistema imunológico (macrófagos). Os antígenos, por sua vez, induziram a produção de anticorpos e a ativação dos linfócitos T, essenciais para o combate à tuberculose. Para a realização das pesquisas, contou-se com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que já investiu cerca de R$ 600 mil no projeto.
Entre os dados experimentais já disponíveis, encontram-se resultados animadores: os camundongos que receberam quatro doses da vacina durante três meses e foram posteriormente infectados com o bacilo da tuberculose registraram a presença de 0 a 1 mil bactérias por grama de tecido, número excelente quando comparado ao do grupo de animais-controle, que não recebeu a vacina (até 1,2 milhão de bactérias por grama de tecido).
Os próximos passos seriam testar a vacina em outros modelos animais e em humanos, mas a equipe de Ribeirão Preto resolveu mudar os rumos de sua pesquisa e encontrou mais um caminho fértil. Em vez de usar a vacina para evitar a infecção o que, com a divulgação dos primeiros resultados brasileiros em 1994, outros grupos de biotecnologia avançada começaram a pesquisar a equipe de Lopes Silva resolveu testar seu uso para o combate direto da infecção já estabelecida, como se fosse um agente terapêutico ou uma droga antimicobacteriana.
Segundo Lopes Silva, isso permitiria uma aplicação imediata da vacina e beneficiaria a enorme parcela da população infectada pelo bacilo. Testes já comprovaram a validade da estratégia em animais infectados: a vacina genética contra a tuberculose previne o desenvolvimento da doença e elimina a infecção, mesmo quando produzida por bacilos resistentes. Em estado mais avançados, e mesmo quando a doença está disseminada pelo corpo, a vacina também ativa o sistema imunológico e possibilita a cura.Tecnologia desenvolvida no País poderá curar a doença que afeta um terço da população mundial
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