O Brasil ganha peso
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quarta-feira, 23 de setembro de 1998
Reali Júnior Agência Estado 
Hoje, no Brasil, a obesidade já apresenta um crescimento endêmico e, se essa tendência persistir, todos os brasileiros serão obesos antes da metade do próximo milênio. Enquanto a desnutrição cai nos países emergentes da África e América Latina, a obesidade tem crescido na mesma proporção e, nos últimos anos, atinge países ricos e pobres.
Esse foi o tema abordado pelo endocrinologista Alfredo Halpern, chefe do Departamento de Obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, durante o Congresso que se realizou em La Defense (França), no início do mês, reunindo mais de 3 mil especialistas de todo o mundo.
Halpern baseia-se em pesquisas nacionais comparativas sobre saúde e nutrição entre mulheres com filhos desnutridos de até 5 anos de idade. Em 1975, o número de desnutridos era quase o dobro dos obesos, mas, em 1996, o mesmo tipo de estudo revelou que a tendência se inverteu e os obesos passaram a ser o dobro. Halpern, que deverá ser o chairman do Congresso sobre a Obesidade em São Paulo, no ano 2002, lembra que dois outros censos, um de 1974 e outro de 1989, revelaram que o índice da massa corpórea, obtido a partir de uma operação peso sobre altura ao quadrado, passou de 24 na década de 70 para 33 em 89. Estima-se atualmente que esse índice oscile entre 40 e 45, o que quer dizer que mais de 40% da populaçao brasileira adulta tem sobrepeso.
Nos EUA, segundo Halpern, essa taxa é da ordem de 50%. Alemanha e Inglattera seguem de perto, sendo Suécia e Holanda os países tidos como os mais magros da Europa. No Brasil isso se deve, em parte, ao fato de o brasileiro estar comendo um pouco mais, o que ocorre também com outros países emergentes e explica o fato de a obesidade atingir principalmente as camadas mais desfavorecidas. Essa faixa da população é também a menos informada, não se submetendo regularmente a nenhum tipo de dieta alimentar.
Ainda segundo Halpern, o impacto dessas facilidades ambientais (ambiente tóxico), isto é, muita comida e pouca atividade física, também ocorre frequentemente com os grupos mais desfavorecidos da população. O estudo trata também de comparar o comportamento das populações rural e urbana. No passado, a populaçao urbana sempre teve maior tendência à obesidade, mas hoje existe um equilíbrio atribuído à assimilação de hábitos alimentares da cidade pelo campo, influenciado mais diretamente pela televisão.
O brasileiro está passando por uma fase de transição nutricional. Aos poucos ele abandona os carboidratos e entra nas gorduras e proteínas. Isso quer dizer que o arroz com feijão, hábito alimentar brasileiro, está cedendo espaço para alimentos gordurosos como manteiga, leite, carne, etc.
Segundo o doutor Halpern, também o padrão da doença do brasileiro está mudando. As doenças parasitárias, infecciosas e ligadas a desnutrição estão desaparecendo, mas outros padrões de doenças próximas ao excesso de peso estão entrando: doenças cardíacas, diabetes, hipertensão, etc.
No resto da América Latina, países como Colômbia, Bolívia e Venezuela, apresentam uma evolução semelhante, mas na Argentina e Uruguai a situação é diversa porque os hábitos alimentares não são os mesmos. Outro aspecto importante no combate à obesidade vai depender de uma mudança de cultura, inclusive urbanística. Para muitos participantes do Congresso de La Defense é preciso eliminar, por exemplo, o excesso de escadas rolantes nos imóveis, isto aumenta a sedentariedade das populações.


