A mais recente especulação da mídia sobre ‘‘avanços marcantes’’ na compreensão das bases científicas da obesidade - termo médico usado para pessoas que estão muito acima do peso adequado para elas - vem focalizando o ‘‘gene da obesidade’’, isolado em camundongos em 1994 por um grupo de especialistas em biologia molecular da Universidade Rockefeller (EUA). A proteína codificada pelo gene foi chamada de leptina, do grego leptos, que significa magro. Em poucos meses, os direitos de patentes descrevendo a leptina foram vendidos em leilão pelo mais alto lance - US$ 19 milhões -, dado pela Amgen. Vários estudos posteriores mostraram uma aparente eficácia nas injeções de leptina para reduzir o peso em camundongos.
Entender como a leptina funciona não tem sido tão fácil e as especulações da mídia sobre estar bem perto de um resultado análogo para humanos parecem, na melhor das hipóteses, ingênuas. Os seres humanos certamente têm o gene equivalente, também responsável pela produção de leptina pelas células de gordura. No entanto, parece não haver correlação entre deficiência de leptina e obesidade em humanos. A descoberta do gene da obesidade poderá ser confirmada no futuro, mas não até que se conheça melhor o mecanismo da leptina. Então, quais alternativas para tratar a obesidade estão atualmente sendo pesquisadas?
Agora, a idéia é fazer uma
lipoaspiração biológicaUma das idéias mais promissoras serve-se do sistema imunológico do organismo para a destruição das células gordurosas. Elas são basicamente reservatórios para estocar gordura. Podem, assim, estar cheias ou vazias e - aparentemente - ser removidas sem efeitos colaterais nocivos. As células de gordura permitem ao organismo sobreviver quando o alimento é escasso. Mas, no caso dos países ricos, elas acabam sendo produzidas em excesso.
Até agora, a lipoaspiração - técnica cirúrgica que retira parte das células de gordura do corpo por aspiração - foi o único método direto para reduzir o número dessas células em humanos. Mas pesquisas no Instituto Hannah, na Escócia, sugerem que a lipoaspiração biológica também pode ser feita. Basicamente, a lipoaspiração biológica funciona porque é possível iludir as defesas imunológicas levando-as a tratar as células de gordura como alvos apropriados para sua supressão. Isto é feito com o uso de anticorpos específicos contra adipócitos (células de gordura). Moléculas de proteínas altamente específicas, esses anticorpos aderem somente a células gordurosas, marcando-as. Muitos animais, incluindo ratos, porcos e carneiros tratados dessa forma apresentaram reduções no número de células gordurosas e na porcentagem de gordura corporal.
A idéia de injeções que destroem adipócitos apareceu em 1995 e, no ano passado, o grupo escossês mostrou que ratos adultos obesos - um bom modelo para pessoas gordas - perderam cerca de 10% do seu peso depois do tratamento. Essa perda de peso foi mantida por três meses, mesmo quando os ratos eram submetidos a uma dieta rica em gorduras. Os ratos perderam ainda mais peso quando o tratamento foi combinado com dieta e exercício.
A técnica envolve o uso de anticorpos, obtidos por engenharia genética, que devem se dirigir e se ligar a células gordurosas, disparando uma reação imunológica que fura a membrana da célula de gordura, destruindo-a. Como usa as próprias defesas do organismo, os pesquisadores acreditam que o tratamento não tenha efeitos colaterais. Eles esperam ainda que a perda de peso seja permanente já que as células gordurosas são destruídas. Existem também evidências de que o tratamento possa ser aplicado de forma local, reduzindo a gordura em apenas algumas regiões do corpo. Tal tratamento poderia ser empregado para reduzir estoques de gordura do organismo, especialmente a gordura abdominal, típica de indivíduos barrigudos, que aumenta os riscos de problemas cardiovasculares. A maneira de administrar o tratamento ainda está em estudo. O método mais provável para aplicação em humanos é uma injeção endovenosa de anticorpos monoclonais. Vários desses anticorpos que reconhecem os adipócitos já foram identificados.
A idéia já foi patenteada e licenciada pela ObeSys, uma companhia criada para desenvolver o tratamento. A ObeSys está procurando parceiros na indústria farmacêutica para ajudar a desenvolver e comercializar a tecnologia. Será um processo vagaroso, porque os efeitos de perda de peso devem ser estudados a longo prazo. Assim, não se espera que a técnica seja comercializada antes de cinco anos. Um pesquisador inglês especialista em obesidade comentou que, embora a idéia seja fascinante, ela não deve ser eficaz em indivíduos que consomem mais calorias do que a energia que gastam.

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