Reprodução/National GeographicNa ilustração acima, as linhas correspondem às ceques, relacionadas aos pontos de observaçãoEm recente publicação, o antropólogo norte-americano Anthony Aveni expõe duas deduções e descobertas sobre o inusitado tema da arqueoastronomia andina. Há muitos anos, diversas outras pesquisas demonstram o grande conhecimento dos fenômenos celestes pelas culturas pré-colombianas da América do Sul. As famosas pistas de Nazca, por exemplo, indicariam representações de constelações relacionadas com áreas de colheitas. Alinhamentos astronômicos foram encontrados em elevadas montanhas do Chile e mesmo no Brasil, na Bahia, arqueólogos descobriram vestígios megalíticos com intenções semelhantes. A originalidade do estudo de Anthony Aveni consiste em correlacionar evidências monumentais com relatos históricos e perspectivas sociológicas, levando a uma melhor compreensão da cosmologia incaica, ou seja, sua visão do mundo físico de uma maneira mais ampla.
As observações astronômicas efetuadas pelos incas utilizavam basicamente técnicas a olho nu e as informações eram transmitidas e acumuladas de geração para geração. As motivações para essas práticas inicialmente eram voltadas para problemas do cotidiano, como a previsão de migrações animais, as estações da chuva, a época de plantio, entre outras.
Na cosmologia inca, o Universo era centralizado no Templo do Sol, em Cuzco. A partir deste templo, eram projetadas linhas imaginárias - chamadas de ceques (raios) - que estavam correlacionadas com locais sagrados e, consequentemente, sítios de observação visual. As maiores ceques formavam bordas e limites do mundo inca. Esses sítios de observação, as huacas, eram frequentemente construídos em altas montanhas, facilitando a contemplação dos fenômenos celestes. Ao redor de Cuzco, as huacas eram situadas ao longo do horizonte, empregadas para marcar as posições do nascer e ocaso do Sol, preservando desta maneira as mais importantes datas do ano sazonal.
Uma das mais importantes orientações nas cercanias de Cuzco, foi realizada para auxiliar a época da colheita. Baseado em relatos de cronistas espanhóis, Aveni reconstitui a posição de quatro antigos pilares de huacas situadas na montanha Cierro Picchue denominadas Ushnu. Elas foram erigidas para marcar os solstícios - época em que o Sol está mais afastado do Equador. No momento do plantio, nos diferentes territórios elevados, eram assinalados dia após dia o curso horizontal do Sol, atravessando as quatro fileiras de pilares. Para o antropólogo, os incas acabaram criando com as montanhas um verdadeiro relógio natural, regulando o calendário agrícola, mas também influenciando o funcionamento da sociedade. O sistema criava funções particulares dentro do mundo inca, designando o lugar coletivo de cada classe ao longo da linha ceque no decorrer do ano. Com isso os estudos de arqueoastronomia apontam novas questões envolvendo a relação entre a natureza e a cultura ao perceber a influência de representações cósmicas no cotidiano.
Johnni Langer é doutorando em História da Universidade Federal do Paraná.

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