Nova peste resiste a antibióticos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de outubro de 1997
Brigitte Castelnau France Presse 
O primeiro caso de peste resistente a múltiplos antibióticos até agora eficazes contra esta doença, que está se alastrando pelo mundo, acaba de ser descoberto por cientistas dos Institutos Pasteur de Madagascar e Paris.
A descoberta em Madagascar, de um cultivo do agente da peste Yersinia pestis, resistente a toda uma série de antibióticos, é muito preocupante, afirmam os médicos em artigos publicados no The New England Journal of Medicine dos EUA.
A notícia preocupa ainda mais pelo fato dessa resistência ter surgido numa das espécies mais patogênicas para o homem e que poderia se estender para um espectro mais amplo de antibióticos, o que tornaria mais difícil um tratamento adaptado.
Esta multiresistência pode seguir para outras regiões afetadas pela doença e chegar a Madagascar, um dos focos da peste negra no mundo (200 casos confirmados por ano, mil segundo os especialistas) adverte Elisabeth Carniel, especialista da peste no Instituto Pasteur de Paris e para a OMS (Organização Mundial para a Saúde).
O cultivo da bactéria batizada Y.pestis 17/95 foi isolado em Madagascar num jovem de 16 anos afetado pela peste bubônica, mas antes de que seu caso se agravasse por causa da malária.
A mesma se revelou resistente não só a estreptomicina, mas também a outros antibióticos recomendados pela OMS para o tratamento e a profilaxia da doença, além de outras alternativas terapêuticas.
Felizmente, outras moléculas (cefalosporinas, quinolones e trimetoprima), ativas no bacilo, permitiram salvar o paciente, indica Carniel, acrescentando que o Bactrim (nome comercial de um medicamento a base de trimetoprima) que foi dado para o jovem continua sendo caro para um país pobre como Madagascar.
A análise do cultivo permitiu descobrir que um minúsculo elemento, um plasmide, possuía os genes desta multiresistência. Trata-se de uma estrutura independente dos cromossomos e que se transmite muito facilmente de uma bactéria para outra. Daí o temor de que esse elemento transmita esta resistência para toda uma população de bacilos da peste.
ContatoA bactéria de Madagascar pode ter recuperado esse elemento de resistência em seu ambiente natural, por contato com outras enterobactérias durante uma de suas passagens no sangue de uma pessoa infectada (homem ou roedor) ou no tubo digestivo da pulga que transmite a doença para o homem, afirmam os cientistas (equipes de Bruno Rasoamanana, em Madagascar, e do doutor Carniel e o professor Patrice Courvalin, em Paris). E temem que este caso se reproduza em outro lugar do mundo.
Esta resistência múltipla do agente da morte negra a toda uma série de antibióticos utilizados habitualmente nos países pobres, preocupa por causa do aumento da doenças no mundo inteiro, inclusive nos EUA.
A última pandemia, iniciada em Hong Kong em 1884, desembarcou no mundo inteiro e se instalou de maneira durável em regiões onde até então não existia: em todas as Américas, Madagascar, Vietnã, África do Sul e várias epidemias reapareceram nos países onde tinham desaparecido há 15 ou 30 anos, como Malawi, Moçambique e Índia.


