No futuro, a computação submersa, quase invisível
No início, eram 18 mil válvulas, 70 mil resistores e cinco milhões de pontos de solda. Assim era o Eniac (Electronic Numerical Integrator and Calculator ou, variando conforme a fonte, Electronic Numerator, Integrator, Analyser and Computer), o primeiro computador digital eletrônico automático da história. Pesava 30 toneladas, ocupava mais de cem metros quadrados e foi criado com um objetivo bem definido: realizar cálculos balísticos para atirar bombas na Alemanha, durante a Segunda Guerra. Por ironia do destino, só ficou pronto no final de 1945. Era apenas o começo de uma série - interminável, diga-se - de atrasos no lançamento de equipamentos e softwares na indústria de tecnologia.
Encontrar informações deste tipo sobre o Eniac não é das tarefas mais difíceis. Emblemático, o monstrengo - que não tinha monitor, teclado ou disco, mas contava com o poder (!) computacional de uma calculadora de bolso rudimentar - surge em qualquer relato sobre a história da computação. O mérito do livro de Ricardo Rangel não é, portanto, apenas resgatar estes ícones isoladamente, mas traçar uma linha evolutiva. Ele descreve como a indústria da computação foi sendo formada, através de talentos individuais, proximidade com o meio acadêmico, fome de ganhar dinheiro e muito, muito acaso. O resultado é um panorama amplo do desenvolvimento da informática, sem similar no nosso mercado editorial.
O livro também explica o funcionamento de muitas das tecnologias abordadas, tentando escapar da esparrela que é o enfoque excessivamente técnico, como diz o autor. Por isso, mais do que um livro técnico, é um livro de história.
Antes de chegar ao Eniac, Rangel foi buscar no ábaco - instrumento formado por uma prancheta com arames, por onde correm bolinhas ou fichas - a pré-história da computação. Para ele, o ábaco é o mais antigo antepassado do computador. E a evolução natural do Eniac chamou-se Univac (de Universal Automatic Computer), lançado em 1951 pela Remington Rand. A ebulição no mercado de informática ainda estava por começar.
A década de 50 era de definição de conceitos. Não havia, sequer, uma distinção muito clara entre hardware (para os componentes físicos do computador) e software (para os programas). A diferenciação só surgiu quando começaram a aparecer os computadores programáveis, descendentes do Eniac capazes de receber instruções externas que determinassem o seu funcionamento.
Uma das primeiras reviravoltas no mundo dos computadores veio justamente com o advento das chamadas linguagens de programação de alto nível, como o Fortran, o Algol e o Cobol. Como Rangel conta, pela primeira vez o programador podia pensar em seu programa de maneira global, utilizando um raciocínio mais próximo do humano e independente da máquina para a qual estava escrevendo.
O primeiro rival do Univac só aparece em 1953, pelas mãos da IBM. Seu nome: IBM 701, uma máquina capaz de armazenar 4.096 palavras de 36 bits. O cenário começa, então, a ser povoado por empresas que se mantêm firmes até hoje, como HP, Digital, Intel, Xerox...
A Xerox, aliás, teve participação decisiva da história. Em 1970, a empresa criou o Palo Alto Research Center, o famoso Parc, referência em centros de pesquisas até hoje. Lá nasceram o mouse, a interface gráfica e impressão a laser, só para citar algumas das invenções decisivas para a implementação do computador no mercado.
A Internet, naturalmente, é um capítulo à parte. Fundamental para o início da Era da Informação, a rede começa a surgir na alvorada dos computadores pessoais, quando a Arpanet, rede da agência do Departamento de Defesa americano, vira uma realidade.
Mas Rangel não se atém apenas ao passado. Parte do livro é dedicada também a analisar o futuro da tecnologia. Para ele, o computador é uma máquina que, hoje, agrega funções demais. No futuro, ele acredita que teremos máquinas menores, para finalidades mais específicas: será a era da miniaturização. Se tudo der certo, a computação estará submersa, invisível para a maior parte das pessoas. Tudo o que puder ser reduzido a bits, como cartas, livros ou música, o será, e só átomos, como flores e bombons, merecerão um tratamento manual. Assim seja.





