Oscar Toshiaki Matsuura
Júlio César Klafke
Ciência Hoje
Um trânsito de Mercúrio ocorrerá no próximo dia 15 de novembro. Durante o fenômeno, o pequeno e escuro disco do planeta cruza o brilhante disco solar. O trânsito de um planeta é visto da Terra quando este passa na frente do Sol. Para tanto, o planeta deve ficar entre a Terra e o Sol e, portanto, isso só é possível com Mercúrio e Vênus. Em média ocorrem 13 trânsitos de Mercúrio por século. O anterior foi em 1993 e o seguinte ocorrerá em 2003. Já os trânsitos de Vênus são bem mais raros. O mais recente ocorreu em 1882 e o próximo será em 2004.
Uma condição para a ocorrência de um trânsito é que o planeta esteja em conjunção inferior. Isso ocorre quando, projetado no plano da órbita da Terra (exclíptica), o planeta parece alinhado entre a Terra e Sol. Conjunções inferiores de Mercúrio se repetem cada 116 dias aproximadamente. Mas os trânsitos não ocorrem a cada conjunção inferior porque o plano da órbita de Mercúrio não coincide com o plano da órbita da Terra (eclíptica), pois está inclinado cerca de 7ø. O alinhamento na conjunção inferior só será perfeito se a Terra, em sua translação ao redor do Sol, estiver cruzando a linha dos nodos, a interseção entre os planos orbitais da Terra e de Mercúrio. Isso ocorre duas vezes por ano: em 8 de maio e 10 de novembro ocorrerá uma conjunção inferior de Mercúrio. Apesar de a Terra já ter cruzado a linha dos nodos cinco dias antes, ainda estará suficientemente perto dela para que ocorra um trânsito.
Um trânsito de Mercúrio foi previsto, pela primeira vez, em 1627, por Johannes Kepler (1571 – 1630) e o fenômeno foi observado em Paris por Pierre Gassendi (1592 – 1655) em 1631. Quatro décadas mais tarde, em 1677, Edmond Halley (1656 – 1742) observou o trânsito de Mercúrio, na ilha de Santa Helena. Foi a partir dessa experiência e de observações feitas em diferentes localidades que o astrônomo determinou a paralaxe do planeta. A paralaxe é a diferença angular entre os diferentes pontos do disco solar nos quais o planeta é projetado, quando observado por duas pessoas, no mesmo instante, em locais diferentes da Terra.
Conhecendo a paralaxe e a linha entre os dois observadores, é possível determinar a distância da Terra ao planeta em questão por triangulação. Halley, no entanto, encontrou na experiência um valor muito impreciso e concluiu que era melhor observar os trânsitos de Vênus por este estar mais perto da Terra. Propôs então um método que, aplicado nos trânsitos de 1761 e 1769, melhorou o conhecimento da distância da Terra ao Sol. Hoje esse método está superado. Desde 1961, radares medem direta e precisamente a distância da Terra ao Sol.
A partir da análise de vários trânsitos de Mercúrio, o astrônomo francês Urbain Jean Joseph Le verrier (1811 – 1877) notou um movimento do periélio (pono da órbita de máxima aproximação ao Sol) desse planeta inexplicável pela teoria de Newton. Chegou-se a pensar num planeta interno a Mercúrio, jamais descoberto. A explicação foi dada pela teoria de relatividade geral de Albert Einstein (1875 – 1955). Essa teoria é capaz de explicar a deformação do espaço/tempo nas proximidades de grandes massas, como sol.
A observação no Brasil
O próximo trânsito de Mercúrio será de difícil observação do Brasil. Mesmo no oeste, quando ele estiver começando, o Sol estará se pondo. O fenômeno poderá ser observado no oeste das Américas, Havaí e Pacífico Sul: Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné, Austrália e Antártida. Porém, bem ao sul, o trânsito será total. Mercúrio descreverá uma corda próxima ao bordo nordeste do Sol em cerca de 50 minutos.
Um observador, com os devidos equipamentos, poderá anotar os instantes precisos e a localização no disco solar, dos contatos entre os bordos de Mercúrio e do Sol. Mas Mercúrio terá apenas 1/200 do diâmetro aparente do disco solar (se o disco solar tiver 20 cm de diâmetro, Mercúrio terá apenas 1 mm!). Por isso a observação é impossível a olho nu, além de requerer filtros adequados. O leitor poderá encontrar mais informações em ‘‘http://sunearth.gsfc.nasa.gov/eclipse/OH/transit99.html’’
Oscar Toshiaki Matsuura é membro do Museu de Astronomia e Ciências Afins/MCT.
Júlio César Klafke é do Instituto Astronômico e Geofísico da USP.

mockup