Nem tudo é doença, segundo a classificação
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de agosto de 1997
Agência Estado 
Calvície e orelha de abano já fizeram parte da classificação internacional de doenças. Até recentemente, homossexualismo estava lá no livrão da Organização Mundial de Saúde, mas por pressão de grupos foi retirado por se entender que não é doença. A última versão da classificação, a CD-10, que deveria ser seguida no mundo todo a partir de 1993, mas que no Brasil só começou a valer de fato no ano passado, traz como principal inovação uma nova doença, a Aids.
O professor Ruy Laurenti, da Faculdade de Saúde Pública, participa dessa revisão na qualidade de membro de um centro que funciona na USP (São Paulo) num convênio entre a Organização Pan-americana de Saúde, a Universidade e o Ministério da Saúde. Laurenti explica que a proposta é que a revisão das doenças seja feita de dez em dez anos, mas a última deve vigorar por mais tempo. Primeiro, porque em alguns países será plenamente adotada só em 1999; depois, porque as mudanças foram estruturais com desdobramentos profundos.
Mas nem sempre a OMS esteve à frente desse trabalho de revisão de doenças; entrou nisso apenas na sexta versão. Até então cada país fazia a sua classificação de causas de morte, independente do número de casos, porque as estatísticas se limitavam a essas indicações. Depois, países da Europa e os Estados Unidos entenderam necessária uma classificação internacional também para a morbidade, isto é, todas as doenças atendidas em hospitais e ambulatórios.
Entrou a OMS na jogada, fez isso e a cada nova revisão o livro ganha detalhes. A última versão, segundo Laurenti, leva a fama de dar mais atenção à morbidade do que à mortalidade. Detalhou mais as doenças e o mesmo mal é encontrado em vários códigos ou subcódigos. Somente para a Aids existem agora cinco categorias e muitas subcategorias. Na CD-10 entrou a febre purpúrica brasileira, doença descrita pela primeira vez na vigência da nona versão.
Carecas e orelhudosFoi na inclusão da morbidade que passaram a fazer parte da classificação internacional alterações ou transtornos não mortais, às vezes nem sequer considerados doenças. É o caso dos carecas e dos orelhudos. Se era motivo de consulta, aparecia no livro. Isso caiu como foram mudados nomes de algumas doenças para que a comunidade médica falasse politicamente correto. Assim, a pedido da Mongólia, o mongolismo passou a se chamar Trisomia do 21 ou Síndrome de Down.
Algumas doenças não totalmente erradicadas, mas exaustivamente estudadas, deixaram de constar da CD-10. É o caso da varíola. Outras mudaram de nome e mudaram de capítulo. Laurenti diz ser importante observar que a classificação não inclui somente as doenças, mas as definições usadas para os indicadores de saúde. Exemplos: o que é nascido vivo, o que é morte.
As doenças estão classificadas por características comuns; as infecciosas por sua etiologia, outras por sua localização anatômica e segundo sistemas como aparelho digestivo, respiratório etc. Na CD-10 existem 21 capítulos, cada um subdividido em agrupamentos ou doenças afins. Desde a sexta versão, lembra Laurenti, estão incluídas na classificação também as causas externas, a exemplo dos acidentes e violências: queda de escada, suicídio, homicídio. Nove centros internacionais cuidam da classificação das doenças além da USP para a língua portuguesa, Londres (inglês), Paris (francês), Moscou (russo), Beijin (chinês), Kwait (árabe), Caracas (espanhol), Estados Unidos (inglês nas Américas) e Upsala (línguas nórdicas).


