B. Piropo, Agência O Globo
Sempre que recebo uma mensagem com arquivos anexos que não solicitei, envio ao remetente uma resposta padrão informando, o mais delicadamente possível, que por princípio eu não os abro. E solicito ao destinatário o obséquio de abster-se de enviá-los já que, como são descartados sem abrir, eles só servem para sobrecarregar a rede e minha caixa postal. Quem recebe esta resposta geralmente entende minha atitude e envia nova mensagem, desta vez texto puro. Alguns me acham paranóico, mas respeitam minha posição. Há também os que se ofendem e me mandam respostas desaforadíssimas. Paciência. Não é minha intenção ofender ninguém. Acho apenas que com vírus, hoje, todo o cuidado é pouco.
Exagero? Pode ser. Mas o fato é que acidentes acontecem. Exemplo: faça uma lista das dez fontes de software que reputa como mais seguras. Aquelas das quais você recebe um arquivo e, de olhos fechados, bota o bicho para rodar sem se preocupar com vírus porque a fonte é confiável. Lista feita? Aposto que Microsoft está nela. E sem dúvida ela merece. Se tem fonte confiável, é a MS. Não tem erro. Ou tem?
Há três semanas, um amigo, gerente de informática, decidiu atualizar sua versão do Internet Explorer e achou que não valeria a pena baixar a atualização via Internet. Preferiu instalar de um CD. Mas como o programa seria usado na rede da empresa, melhor não correr riscos. Optou pela fonte mais confiável. Acessou a página da própria MS e descobriu que poderia solicitar o CD-ROM por telefone, pagando R$ 15,90 mais despesas postais. O tipo do negócio bom, barato e seguro. Ligou. Recebeu instruções para fazer um depósito bancário em nome da IBS (uma empresa subcontratada da MS). Fê-lo. E dias depois recebeu o CD-ROM pelo correio. Era um CD-R gravado, mas com a nota fiscal da IBS e com o logo da Microsoft na capa, no rótulo e na contracapa. Um produto garantidamente original. Mais seguro, impossível.
Pois bem: dos 20 arquivos executáveis do CD, nove estavam contaminados com o Chernobyl. Inclusive o arquivo Setup.Exe que, quando a função Autorun está habilitada (ela é habilitada por padrão), é executado automaticamente assim que o CD é inserido no drive. Ou seja: se o antivírus não estiver rodando em segundo plano para testar cada executável, a vítima não tem a menor chance de escapar: botou o CD no drive, dançou.
Contando, parece mentira. Mas não é. Testei o CD e o Norton Antivírus flagrou imediatamente os arquivos contaminados. Duro de acreditar, mas é fato.
A Microsoft do Brasil, diante da gravidade da situação, teve uma atitude irrepreensível. Assim que tomei conhecimento do fato, entrei em contato com sua assessoria de imprensa e solicitei um pronunciamento da empresa. Menos de 48 horas depois recebi um relato do ocorrido e das providências tomadas. Em resumo: a MS não produz CDs, contrata terceiros para tal. No processo de duplicação, um lote de 43 CDs produzidos emergencialmente para atender a necessidades de clientes foi infectado pelo Chernobyl, que não foi detectado pelo antivírus usado pelo fornecedor da MS.
O problema afetou apenas os CDs embarcados nos últimos dias 1 e 2, enquanto eram prensados os CDs industriais. Assim que foi recebido o alerta de um usuário, todos os clientes que receberam CDs contaminados foram identificados. No momento em que este texto era escrito, havia ainda 33 pendências. Destas, nove clientes foram infectados (mas não perderam dados), e além de um novo CD, receberam um antivírus como cortesia. Dos demais, 24 ainda não haviam sido localizados. A MS Brasil alertou o fornecedor para a gravidade do erro e estava analisando seus procedimentos de qualidade, não afastando a hipótese de descredenciamento.
São coisas assim que me fazem repetir, incansavelmente, as mesmas recomendações: jamais relaxe com a segurança contra vírus e mantenha backup atualizado. E se você ainda me acha paranóico, reconsidere. Os tempos não estão para brincadeira.Serviço terceirizado da empresa distribuiu softwares contaminados com o Chernobyl; problema ainda está sendo solucionado
ReproduçãoReproduçãoAmeaça constanteA equipe de reação de emergência de computadores alerta, através de sites de empresas que desenvolvem softwares antivírus, que o ‘‘verme’’ pode se espalhar não apenas através de anexos de e-mail, mas também através de redes internas corporativas

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