Experimente entrar em uma sala de aula dos cursos de Engenharia da Computação, Ciências da Computação ou Sistemas de Informação. A primeira coisa que muitos percebem, mas não estranham, é o reduzido número de mulheres estudando no meio a uma pá de homens. Esta é a realidade de Gabriela Schimidt, de 17 anos. Da turma de 40 alunos do primeiro ano de Sistemas de Informação do Centro Universitário Filadélfia (Unifil), apenas ela é do sexo feminino. Gabriela, assim como outras professoras e profissionais do setor, já esperavam encontrar este cenário nos bancos das faculdades e no mercado de trabalho. Mas, mesmo em uma área dominada pelos homens, as poucas mulheres que atuam na área se destacam.
Nas três universidades que oferecem cursos superiores relacionados à Tecnologia da Informação há turmas que chegam a se formar sem nenhuma mulher. Na Universidade Estadual de Londrina (UEL), grande foi a surpresa quando, em uma turma de 40 alunos, sete eram do sexo feminino, conta Jandira Guenka, docente do curso. Na Universidade Norte do Paraná (Unopar), a diferença aumenta. A turma do período noturno tem 70 alunos e, neste ano, apenas cinco mulheres se matricularam no curso de Engenharia da Computação. De acordo com a professora Simone Tanaka, do Centro Universitário Filadélfia (Unifil), na pós-graduação, a situação se repete.
Entretanto, as mulheres que ingressam nestes cursos são decididas: já chegam cientes de sua vocação e têm em mente qual caminho desejam seguir na careira, acrescenta a professora do curso de Engenharia da Computação da Unopar, Cristiane Mashuda.
Seja dentro ou fora da universidade, elas se mostram mais detalhistas, minuciosas, exigentes, dedicadas, persistentes e não aceitam ir embora com dúvidas da sala de aula. Entre as mulheres, o nível de desistência, em um curso com elevado grau de evasão é menor e elas já saem quase inseridas no mercado de trabalho. ''Geralmente, as meninas que se formam são as melhores da turma, têm as notas mais elevadas'', completa a professora Cristiane.
Na Agência de Inovação Tecnológica da UEL (Aintec), apenas duas empresas contam com a atuação de mulheres formadas na área de TI, afirma o professor Jair Scarmínio, diretor da Aintec. Ele ressalta que há diferenças entre as empresas incubadas em que há e em que não há a presença da mulher. ''O comportamento fica diferente no dia a dia. A presença da mulher traz mais organização, mais ordem. As contribuições femininas estão na visão mais sistêmica do todo e na sensibilidade.''
De acordo com estimativas da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (Assespro-PR), quando se consideram os cargos administrativos, financeiros e comerciais, as mulheres representam 15% a 20% do efetivo de uma empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), afirma Sérgio Yamada, presidente da entidade. No entanto, este número cai para 5%, ou menos, quando se fala dos cargos técnicos. ''Percebemos que as mulheres não se atraem pelas funções mais técnicas - desenvolvimento, análise, testes, manutenção e suporte em sistemas e infraestrutura, gerenciamento de projetos. Todavia, quando temos a presença delas nestas funções, normalmente a performance é acima de média'', declara Yamada.
Além disso, no dia a dia da empresa, elas se mostram mais comprometidas com objetivos e metas e são mais fiéis à empresa, afirma Yamada. ''Elas apresentam rotatividade menor que os homens.''
Bloqueio
Existem inúmeras causas que podem levar as mulheres a desviar a escolha da profissão das áreas exatas. Para a professora Cristiane Mashuda, esta tendência pode vir da infância. ''As mulheres são todas preparadas para serem mães, ganham brinquedos voltados ao mundo feminino, diferente do menino, que usa ferramentas para construir carrinhos, já estimulando o lado engenheiro dele.''
Anos atrás, as mulheres preenchiam mais as salas de aula, contam as professoras, mesmo que o ''bloqueio'' fosse maior. ''Antes, não se via meninas falando de videogame e tecnologia.'' O presidente da Assespro-PR concorda que havia maior participação feminina no mercado de TI. ''Em meados da década de 80, tínhamos nos vestibulares quase 50% de participação feminina. Esta média não se mantinha no mercado, mas era bem maior do que a participação atual.''
''Criou-se, ao longo dos anos, um estigma que o setor de TIC é um setor dominado por homens e que as mulheres não têm a mesma condição de trabalho que eles. Isso já foi verdade, e não somente para o setor de TIC. Entretanto, hoje as coisas mudaram muito'', disse Yamada sobre a baixa participação feminina no mercado de TI atualmente.

mockup