Totalmente
legal na Internet
Jay Dougherty e
Venio Piero Quinque
Deutsche Presse
De Hamburgo
Especialistas prevêem que a distribuição ‘‘online’’ transformará fundamentalmente a forma de difundir a música. Empresas da Internet sem vínculos óbvios com a indústria musical já estão tratando de se colocar no que acreditam que será um negócio lucrativo

Tudo começou com um trabalho acadêmico com o complicado título de ‘‘contribuição ao procedimento de valorização de qualidade para a codificação musical de alta qualidade’’. ‘‘Este foi o título de minha dissertação de 198 páginas’’, disse Karlheinz Brandenburgo. Isto, há dez anos, lhe valeu o título de doutor em física.
Atualmente, Brandenburg trabalha como cientista, acompanhando como outros fazem dinheiro aos montes com a última forma de ‘‘codificação musical de alta qualidade’’, mais conhecida pela sigla MP3.
Um norte-americano registrou o endereço da Internet, www.mp3.com e agora é dono de um dos sites mais visitados da Rede. A ‘‘MP3’’ se converteu no software sensação dos últimos anos. Dito em poucas palavras, MP3 é um formato de arquivo que permite a codificação digital, compressão e transmissão de música através da Internet.
Através de leitores MP3 - seja como software ou como aparelhos portáteis -
qualquer um pode ouvir música de arquivos em formato MP3 em casa ou na rua.
Para muitos na indústria discográfica, a versatilidade do formato MP3 é um desafio de grandes proporções. A razão disto é que muitas gravações registradas como propriedade intelectual têm sido postas a disposição para serem transferidas da Web sob o formato MP3 sem o consentimento de seus proprietários.
Para combater o problema, as grandes empresas fonográficas estão trabalhando furiosamente em busca de uma forma de salvaguardar sua propriedade intelectual.
Recentemente, vários pesos-pesados da indústria fonográfica iniciaram uma campanha publicitária destinada a impedir a difusão ilegal de arquivos MP3. Encabeçada por sites como o ‘‘Copy kills Music’’ , em www.Copykillsmusic.de, trata-se de um esforço em grande parte educativo.
‘‘O fruto do trabalho dos músicos é furtado’’, disse Tim Renner, presidente do braço europeu do Grupo Universal Music.
O site ‘‘Copy Kills Music’’ pinta em traços dramáticos o que será da indústria fonográfica se a difusão ilegal de arquivos MP3 continuar proliferando.
Segundo porta-vozes oficiais da indústria, em 1999, 60 milhões de CDs foram copiados ilegalmente e dez milhões de cópias foram vendidas sem a autorização de seus donos. ‘‘Isto representou a perda de mais de US$ 120 milhões em direitos para a indústria fonográfica no ano passado, o equivalente ao faturamento anual de uma empresa gravadora de grande porte’’, disse Renner, assinalando que ‘‘cada CD copiado ilegalmente é uma ameaça ao apoio que jovens artistas necessitam’’.
Mas a indignação pela distribuição ilegal de música em formato MP3 faz com que se esqueça de uma coisa importante: muitas gravações perfeitamente legais têm aparecido na Web e encontrado quem as apreciam, graças ao MP3.
Em sites como MP3.com e Virtual Volume, www.virtual-volume.com, grupos musicais novos e desconhecidos apresentam suas criações ao mundo para serem transferidas gratuitamente.
‘‘Nossa arena virtual torna possível que qualquer grupo faça sua própria divulgação, sem necessidade de investir dinheiro algum’’, disse Andreas Heineke, operador da Virtual Volume. ‘‘É evidente que tomamos cuidado para que as músicas não contenham textos ofensivos ou impróprios’’, assinala. ‘‘Mas seja rock, pop, música clássica, country ou folclore, reconhecemos quando existe a licença poética’’.
Isto é música para os ouvidos de muitos músicos em começo de carreira que, de outra forma não conseguiriam a enorme audiência que lhes garante o MP3 e a Internet.
‘‘O que a Internet faz é descentralizar o mercado, permitindo aos artistas vender diretamente’’, disse Michael Robertson, presidente da MP3.com.
Ron Shunshine, chefe de um grupo de ‘‘swing’’ novaiorquino, é da mesma opinião. ‘‘Creio que MP3 tem ajudado muito, especialmente aos músicos mais jovens’’, disse. ’’ Recebo milhares de e-mails de gente jovem que disse ter ouvido nossa música na Internet’’, acrescentou.
Existem também algumas gravadoras progressistas que se introduziram na onda MP3, tentando tirar proveito deste lucrativo nicho de mercado, enquanto outros selos estão paralisados por medo.
A Virtual Records, www.virtualrecords.com, por exemplo, apresenta grupos cuja música tem tido mais êxito em ser transferida por usuários da Internet.
A proposta é ‘‘expor, promover e distribuir a música por seus próprios artistas, e dar um lugar àqueles que têm o talento mas não os meios para fazer uma carreira’’, disse a empresa.
A Music on Click, www.mcy.com é outra das empresas que estão encarando o novo mercado da música digital de forma positiva. Em seu site na Web, os visitantes podem transferir música a preços entre US$ 0,99 a US$ 2. ‘‘Oferecemos também concertos com músicos de renome, que transmitimos via Internet’’, disse Tia Ernst, da MYC.
A distribuição ‘‘online’’, prevêem os especialistas, transformará fundamentalmente a forma de difundir a música. Em lugar de procurar um artista ou uma gravação em particular, muitos sites oferecem buscas por gênero musical. Depois de o usuário entrar em uma seleção específica como o jazz, por exemplo, são oferecidas outras possibilidades similares, como acid jazz, soul ou hip hop.
A música digital se tornou tão popular que inclusive empresas da Internet sem vínculos óbvios com a indústria musical já estão tratando de se colocar no que acreditam que será um negócio lucrativo.
Um buscador como o Lycos, por exemplo, já abriu uma janela MP3 no site music.lycos.com onde o visitante pode procurar a música espalhada em toda a rede. A Lycos afirma ter a maior base de dados MP3 da Internet, mas outros buscadores como o Alta Vista, www.av.com também instalaram a possibilidade MP3 em seus sites. No Brasil, um dos buscadores mais famosos que reservam janela especial para MP3 é o Miner, em www.miner.com.br.
Para não ficar de lado, os fabricantes de softwares usados até agora para ler os arquivos MP3 em computadores já estão preparando a nova geração de leitores MP3.
‘‘Em cooperação com vários fabricantes, lançaremos a nova norma Advanced Audio Coding’’, disse Karlheinz Brandenburg, o inventor do MP3, na cidade alemã de Erlangen. ‘‘Este software incluirá todos os mecanismos desejados pelo usuário atual, especialmente uma melhora da qualidade do som, e em arquivos de menor tamanho’’, anunciou.

mockup