Microsoft x Justica: mais duelos em 98
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quinta-feira, 25 de dezembro de 1997
Agência Globo Rio de Janeiro 
Arquuivo FolhaBatalhaBill Gates: novos embates com o Departamento de JustiçaO juiz Thomas Penfield Jackson está fazendo história. Na semana retrasada, como foi publicado, proibiu a Microsoft de impor a instalação do browser Internet Explorer como condição de venda do sistema operacional Windows 95. Mas na semana passada mesmo, repreendeu a Microsoft por descumprir essa ordem. Resultado: a empresa de Bill Gates e o Departamento de Justiça voltam ao tribunal em 13 de janeiro de 98 para outra audiência, a fim de definir se a empresa agiu ou não de má-fé.
Windows 95 funciona ou não sem o browser?
A questão central agora é saber se o Windows 95, na sua versão atual, funciona sem o Internet Explorer. A Microsoft chegou a dizer que não funciona. Ou, pelo menos, não funciona bem. Segundo o próprio juiz, funciona - e bem. Na quinta-feira da semana passada, o meritíssimo Jackson pediu ajuda a alguns técnicos do tribunal e presenciou, em cerca de 90 segundos, uma sequência fulminante de cliques que acabaram por eliminar totalmente qualquer rastro do Explorer numa máquina da Micron PC rodando... Windows 95.
Ele achou o processo todo muito fácil e o resultado foi que, depois de desinstalado, o juiz tinha um sistema funcionando com a maior dignidade. Quando viu a iniciativa micreira do magistrado, a Microsoft voltou atrás no que tinha dito e garantiu que o sistema funciona, sim, sem o browser. Mas... com ressalvas.
A briga nunca esteve tão boa. Para enfrentar a horda de advogados da Microsoft, o DOJ contratou o advogado mais caro dos Estados Unidos, o famoso David Boies, que chega a cobrar até US$ 550 por hora. Para o Governo, porém, ele vai fazer um desconto.
Para Bill Gates, seguir a orientação ao pé da letra (da lei) significa vender um sistema que até pode funcionar em condições de laboratório, mas que, dificilmente, vai se mostrar estável num ambiente de produção, que é o nome que a Microsoft dá aos locais de trabalho. Se cumprir a lei a seu bel-prazer, a empresa de Bill Gates vai entregar um sistema que, mais cedo ou mais tarde, exigirá a presença do browser para poder funcionar adequadamente, esticando ainda mais a fronteira em que o mundo deixa de ser um problema jurídico para ser um detalhe técnico. O que motivou o juiz Jackson a enquadrar a empresa na condição de violadora de ordens judiciais foi exatamente o cinismo da empresa de Bill Gates nesse momento.
Estamos solicitando formalmente à corte que reconsidere a possibilidade de multar a Microsoft em US$ 1 milhão por dia até que ela entenda que não pode se comportar assim, disseram representantes do DOJ.
Enquanto isso, em Redmond, o clima era mesmo de... cinismo. Até porque, em meio a essa imbricada situação, de onde menos se esperava é que veio a maior pedrada. O World Wide Web Consortium, entidade que regula os padrões da Internet, conhecido como W3C, homologou o último release da linguagem HTML. Até aí tudo bem, porque já se esperava mesmo que o documento fosse divulgado por esses dias. O que não se sabia é que ele seria um petardo contra a... Netscape.
Uma rede que só o Explorer poderá navegar?
Formulários avançados, frames alinhados, suporte a objetos e scripts diferenciados, facilidades para quem quiser publicar páginas em diversos idiomas, entre outras belezinhas, estarão nas futuras home pages da Web escritas em HTML 4.0. Detalhe: o Internet Explorer já suporta praticamente todo esse conjunto de especificações. O Netscape, não.
A situação atual é a de uma Netscape fragilizada por não falar HTML 4.0 e de uma Microsoft fortalecida pela razão oposta. A Netscape é uma das principais defensoras do padrão HTML. Ver a Microsoft dando as cartas num território que já foi inteiramente dela depõe contra a sua competência tecnológica, comentou Rob Enderl, analista da empresa Giga Research.
Moral: Bill Gates sabe manipular pregos e estopas.


