Bill Gates, no momento mais difícil de sua trajetória: tiro pela culatra e ‘‘mico’’ na apresentação do Windows 98O prêmio ‘‘Mico de Ouro’’ é definitivamente da Microsoft. Semana passada, a empresa resolveu apelar para o marketing e montar uma operação (à moda caravana Sérgio Naya?) que consistia em sugerir a diversos usuários e formadores de opinião que escrevessem cartas de apoio, destacando as benesses proporcionadas pelos microsoftwares às criancinhas e à sociedade americana.
Sentindo-se prejudicado pelas ações e investigações movidas pelo Departamento de Justiça, Bill Gates quis simular uma reação ‘‘espontânea’’ simpática à sua empresa, no que é, sem dúvida (e até aqui...), o momento mais difícil de sua história.
A existência da tramóia, denunciada pelo ‘‘Los Angeles Times’’, foi prontamente negada pelo porta-voz da empresa, Greg Shaw. Que, no entanto, não viu nada de errado em relação à metodologia da campanha; ele rechaçou apenas as acusações de ter comprado as cartas, mas confirmou: ‘‘Um plano assim foi, de fato, sugerido por uma das agências de comunicação que nos assessoram’’, disse. ‘‘Mas ele ainda está em avaliação.’’
Segundo Shaw, o plano de campanha seria até mais abrangente do que se supunha. Ele incluiria a veiculação de anúncios de página inteira nos grandes jornais, conferências em universidades e entrevistas coletivas nas escadarias no Senado para explicar como os produtos da empresa ajudam a economia americana.
O porta-voz explicou que a campanha seria, naturalmente, mais enfática nos estados que ensaiam ações similares às que tramitam no DOJ e nos quais, é lógico, a imagem da M$ está mais suja. Taí: lavagem de imagem?!
A discussão em torno do monopólio exercido pela empresa de Gates está tão feia que até mesmo aceitar software Microsoft de graça pode ser um constrangimento. Na sexta-feira passada, a California State University, uma das maiores universidades americanas, não quis fechar um projeto de parceria com a M$ para conectar, em rede, os seus 22 câmpi. A explicação do reitor Charles B. Reed é simples: ‘‘Nós não queremos envolvimento com o debate em torno do monopólio da Microsoft’’, disse ele. ‘‘Além disso, esta decisão não tem impacto algum sobre o projeto de interligação das sedes da CSU. Continuaremos usando software da Microsoft de qualquer maneira, como todo mundo. Só não queremos é pôr mais lenha na fogueira.’’
Tudo bem explicadinho e comportado, como convém a um reitor, mas a decisão é clara: uma associação com a Microsoft pode trazer problemas, especialmente dentro das universidades.
A decisão foi celebrada pelos alunos, que chegaram a ironizar a possível presença da M$ dentro do câmpus como (mais) uma invasão corporativa: dezenas faixas com dizeres do tipo ‘‘No to MSU’’ (Não à Microsoft State University), chegaram a circular em vários departamentos.
O Good Morning Silicon Valley, www.sjmercury.com/gmsv, website do jornal ‘‘San Jose Mercury News’’, o mais bem informado sobre empresas de tecnologia, registrou, na edição de quinta-feira passada, que a campanha da Microsoft para recuperar sua imagem pública não terá efeito prático algum.
A jornalista Jodi Mardesich conversou com Mark Andreesen, vice-presidente de tecnologia da Netscape, e perguntou se sua empresa já tinha pensado numa campanha dessas. ‘‘Não acredito que a gente precise de uma coisa dessas, se é isso que você quer saber’’, disse ele. ‘‘O usuário Netscape é fiel à marca por si mesmo.’’
Se vier a ser aplicada em sua totalidade, a campanha de limpeza de imagem da M$ talvez tenha que carimbar o passaporte e veicular anúncios também fora dos Estados Unidos. Aqui mesmo, no Brasil, já rola contra a empresa um processo no Ministério da Justiça. E - bomba, bomba!!! - lá no titio, os passaportes de três dos assessores de relações públicas da M$ alemã acabam de ser carimbados: eles foram convocados às pressas para levar um papo sério, franco e discreto com os correspondentes que as grandes publicações alemãs mantêm nos Estados Unidos. O assunto? Só os leitores da Stern, do Frankfurter Allgemeine Zeitung e outros menos votados saberão dizer...
No Brasil, o processo contra a Microsoft partiu da empresa mineira Paiva Piovesan, produtora do programa Finance, semelhante ao Money, mas que custa aproximadamente R$ 100,00. Em princípios de março, a empresa brasileira entrou com denúncia de prática monopolista junto à SDE, alegando que o Money é oferecido de graça nos seus pacotes de finanças e que, consequentemente, não estava mais conseguindo oferecer seu produto aos bancos privados e a instituições oficiais, que estariam utilizando o material gratuito da Microsoft.
Segundo a legislação brasileira, enquanto o processo estiver tramitando na SDE, a secretaria pode aplicar uma multa diária de até R$ 3 milhões contra a empresa suspeita de estar infringindo a legislação de defesa da concorrência, com o objetivo de forçar o representado a voltar atrás. De acordo com a Paiva Piovesan, a Microsoft também pretende incluir o Money, gratuitamente, no Office, que detém 90% do mercado brasileiro. O despacho foi publicado na semana passada no Diário Oficial. Depois de notificada, a Microsoft do Brasil terá 15 dias para se defender. Não há previsão de quando o processo será encaminhado a julgamento.
Se a moda pega, não vai ter campanha que chegue. E a imagem da maior softwarehouse do mundo vai ficar mais suja do que o velho pau de galinheiro.

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