Entrar no mercado de trabalho sem conhecer pelo menos o básico da informática é tarefa complicada para os adolescentes da atualidade, que encontram nas empresas a exigência mínima do domínio de programas como o editor de texto Word, o Excel (planilhas) e o Access (bando de dados), mesmo para realizar as tarefas mais simples. A nova necessidade impulsiona o mercado das escolas de computação, mas não é segredo para a maioria dos jovens das classes média e alta. Esses já nascem na era dos micros, disponíveis em casa, e começam a manipular as máquinas ao mesmo tempo em que aprendem a ligar a televisão, o vídeo ou o forno de microondas.
Eles, provavelmente, nem imaginam que seus pais e avós tinham que passar pelo ritual das escolas de datilografia para tornarem-se aptos ao primeiro emprego. É o caso do advogado aposentado José Geraldo Lopes, 76 anos, que aprendeu a escrever à máquina aos 14 anos, em 1938, antes do surgimento do primeiro computador, em 1946, do modelo Eniac, que operava por válvulas ao invés de transistores e foi projetado para agilizar o desenvolvimento da bomba atômica.
‘‘Quando aprendi datilografia não tinha nem máquina elétrica. O modelo manual era muito moderno’’, lembra-se. Matriculado na escola de informática para a terceira idade do Sesc, em Londrina, ele nunca utilizou o computador enquanto estava ativo na profissão. ‘‘Achava muito difícil. Só me interessei pelo assunto agora porque não quero ficar para trás. Vou comprar um computador e pretendo ajudar minha filha, que é professora, a preparar aulas’’, planeja.
A recepcionista Helena de Fátima da Cunha, 41 anos, enfrentou o tradicional Manual de Datilografia em 1975, mesmo ano em que foi desenvolvida a primeira linguagem para micros, a ultrapassada Basic. ‘‘Naquele tempo, era exigência do mercado e fundamental para o currículo saber datilografar’’, ressalta. Cabe lembrar que o Manual de Datilografia era companheiro inseparável dos jovens que iam para as aulas de datilografia, cujos cursos estavam espalhados em vários cantos das cidades.
Até 1984, Helena trabalhou apenas com a máquina de escrever, utilizando os conhecimentos adquiridos na juventude. Porém, com a crescente informatização das empresas, teve que se render à informática. ‘‘Aprendi sozinha a mexer no computador. Por necessidade. Foi bem mais fácil e hoje eu utilizo normalmente’’, diz.
Interessado em novidades tecnológicas desde a década de 80, quando era adolescente, o professor de informática Vanderlei Mezzadri nunca fez curso de datilografia, porque achava ultrapassado. ‘‘Meu primeiro computador foi um TK 85, que não tinha disco rígido e carregava via fita cassete. Depois veio o CP 400, sem monitor, que era conectado na tela da televisão’’, recorda-se.
Ele ensina alunos das 7ª e 8ª séries na Escola Estadual Polivalente de Londrina, no Jardim Santa Rita, que oferece curso de informática na grade curricular. O aluno Fernando Santi, 14 anos, não tem computador em casa e travou seu primeiro contato com o equipamento no colégio, durante as aulas do professor Vanderlei. ‘‘Acho tudo muito interessante, é legal aprender informática. Nunca naveguei na internet, não vejo a hora de termos aqui na escola.’’
Para os alunos mais jovens, das 5ª e 6ª séries, a máquina de escrever ainda faz parte do dia-a dia. Eles têm aulas de técnicas comerciais, em que aprendem datilografia para preencher cheques, recibos e ofícios. Érika de Oliveira Borges, 12 anos, nunca sentou-se em frente a um computador, mas já se diverte com as máquinas de escrever. ‘‘A aula de datilografia é mais legal que as outras, nós temos uma lojinha para aprender a trabalhar. Mas espero que a aula de informática, no ano que vem, seja melhor ainda. Quero aprender tudo que for interessante.’’
Integrante da mesma geração, Bruno Pelisson Marques, 14 anos, tem computador há quatro anos e nunca fez aula de datilografia. Ele digita apenas com os indicadores. Autodidata, Bruno aprendeu a usar o computador só com a ajuda dos pais e avós. Seu primeiro contato com a informática aconteceu na era do mouse e após o desenvolvimento do Windows 95, além dos programas para navegação na internet.
‘‘Eu vivo fuçando nos programas, nunca paro de aprender. Sinto necessidade de novas informações a cada dia, por isso até me matriculei em um curso. Mas o meu maior interesse é pela internet.’’