Meninos, eu vi!
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 18 de março de 1998
Cora Ronai Agência Globo 
DivulgaçãoExtraordináriaPara valer mil palavras, só ligando na tomada; mas reparem os cantos, retinhos. A América Latina terá o privilégio de ser a segunda a ver esta maravilhaAté a semana passada, para esta V.E. (Vossa Escriba), uma televisão era uma televisão era uma televisão: não obstante ligeiras mudanças de design, a imagem, para bem ou mal, era sempre a mesma. Não mais. Acontece que, na quinta-feira, fui apresentada, com um grupo de coleguinhas sul-americanos, ao exemplar cuja foto encontra-se aí à esquerda.
Uma Sony FD Trinitron VVega. 29 polegadas, todas nos lugares certos. Tela plana. E uma imagem tão revolucionariamente extraordinária que, pela primeira vez na vida, vi um objeto eletrônico ser aplaudido em cena aberta durante uma coletiva de imprensa.
O grande segredo da VVega - às vezes escreve-se Wega, mas pronuncia-se Vega, em homenagem à estrela; os dois V sobrepostos foram a forma encontrada para dar uma volta no nome Vega com um V só, registrado antes por outra empresa - é a tela plana. Mas tela plana mesmo, como imaginava-se ser o mundo antes do intrépido Fernão de Magalhães, e não a - tela plana - da publicidade, que apenas não é inteiramente curva.
A diferença é inacreditável, São Tomé que o diga. A questão toda resume-se a quatro pontos de perda de qualidade incontornáveis nas telas curvas dos monitores tradicionais. Primeiro, a distorção geométrica produzida pela curvatura, que transforma linhas retas próximas aos cantos em linhas abauladas; já não reparamos muito nisso, porque nossa visão está acostumada ao fato de que televisão é assim mesmo, e pronto.
Segundo, o ângulo de visão que, por causa da curvatura, torna-se pior à medida em que o espectador afasta-se do ponto central do aparelho. Terceiro, o ambiente, refletido em toda a sua glória e luzes na telinha. Outra vez a curvatura é a vilã da história, por dar ao tubo a mesma capacidade de abrangência de uma lente grande angular - todo mundo já percebeu que mesmo o raio daquele abajur lá no outro lado da sala tem que ser apagado se a gente quiser ver uma imagem sem reflexos inconvenientes.
Finalmente, a perda da imagem dos cantinhos. Fazer uma tela plana, que é, claro, a solução óbvia, era até aqui, ao mesmo tempo, uma solução inviável. Então estávamos, se bem me lembro, na impossibilidade técnica - ou pelo menos prática - de se fazer uma tela plana, saída obviamente ululante para os problemas apresentados pelas telas curvas.
Esta impossibilidade prendia-se, basicamente, a dois motivos: limitações estruturais do vidro e problemas de foco do canhão de elétrons, aquela pecinha do tubo da qual os elétrons (quem diria!) são emitidos para a tela. A questão do vidro é relativamente simples de entender. Dentro de cada tubo de imagem há um vácuo; fora de cada tubo há uma baita pressão atmosférica. Ora, superfícies curvas, em que o peso espalha-se de forma gradual, suportam esta pressão muito melhor do que superfícies retas.
Mesmo o melhor dos vidros utilizados para a construção de um monitor normal é incapaz de suportá-la por muito tempo se não tiver um mínimo de curvatura. Assim, para desenvolver a sua tela plana, a Sony teve que descobrir, primeiro, um vidro que fosse capaz de suportar a pressão atmosférica e, ao mesmo tempo, tivesse a pureza necessária a um tubo de imagem - que, ça va sans dire, não pode sair de fábrica cheio de bolhas e imperfeições. A solução foi encontrada junto à indústria automobilística, que também usa vidros da pesada.
Mas o vidro é só uma parte da equação; as figurinhas se fazem através de uma espécie de grade onde se encontram os famosos pontinhos de fósforo verde, azul e vermelho que, em conjunto com os elétrons, formam a imagem. Aqui a Sony já tinha dado um pulo-do-gato há alguns anos, ao desenvolver o sistema Trinitron, em que a grade funciona na vertical, ao contrário do que se fazia rotineiramente. No caso da VVega, a própria grade foi achatada, e cumpre, agora, uma dupla função: a de receptora de elétrons e a de reforço adicional ao supervidro plano.
A questão do foco é um pouco mais complicada de explicar, mas resume-se ao seguinte: um canhão de elétrons normal tem uma ótima capacidade de foco no centro do feixe de elétrons e, por conseguinte, os pontinhos que usa para criar a imagem são, no meio do tubo, redondos e definidos.
À medida que se afastam do centro, no entanto, são distorcidos de tal maneira que, ao chegar às margens do tubo, já têm uma forma totalmente ovalada. É por isso, aliás, que nunca se vê texto realmente legível e em foco na telinha, como bem sabe quem já experimentou brincar com uma Web TV.
A saída que a Sony encontrou para este problema foi aumentar a profundidade focal do canhão em 30%. Quem fotografa sabe a diferença que isto faz: é muito mais fácil conseguir um close em foco com uma tele do que com uma lente de 50mm.
Pô, mas se era só isso, por que ninguém fez algo parecido antes? Porque, naturalmente, este só isso só vira só isso quando descoberto e explicado; e, também naturalmente, porque é claro que este só isso não é só isso.
Há uma série de detalhes tecnológicos embutidos na VVega que fazem dela algo tão diferente, mas nem a Sony seria besta de entregar tudo de bandeja ao primeiro grupo de jornalistas que aparecesse, nem nós seríamos inteligentes a ponto de sacar, em meia hora, o que toda uma equipe de técnicos japoneses levou alguns anos desenvolvendo. O fato é que, depois de se ver a imagem de uma VVega - e depois de se ouvir o som de uma VVega! um baita espetáculo auditivo - a gente volta para casa com vontade de deserdar o fiel eletrodoméstico a que, por tanto tempo, chamamos de televisão.
Em tempo: com exceção do Japão, a América Latina será a primeira região do mundo a ver esta maravilha. Explica-se: a Copa do Mundo vem aí, e o mercado nuestro pega fogo. Portanto, comecem a se preparar para raspar a poupança em junho, quando VVegas de 29 polegadas desembarcam na praça. Estão sentados? OK: a uns U$ 3.300, em primeira previsão.


