Medrosos, curiosos, mas revolucionários
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de dezembro de 1997
Agência Globo Rio de Janeiro 
Camilla Maia/Agência GloboPontapéA psicóloga Ana Maria: Não acho que a Internet vá ter ou esteja tendo impactos comparáveis à TV, ao rádio ou ao telefone. Acho que será muito maiorA psicóloga e jornalista Ana Maria Nicolaci-da-Costa, de 50 anos, não tem dúvidas: estamos vivendo uma revolução que só pode ser equiparada à Revolução Industrial. A exemplo da máquina a vapor, que provocou muitas das mudanças no fim do século XVIII e durante todo o século XIX, agora também estamos sofrendo a influência de uma inovação tecnológica: a Internet. Pesquisadora do departamento de Psicologia da PUC-Rio, ela acaba de lançar o livro Na malha da rede - Os impactos íntimos da Internet, da editora Campus, em que dá o pontapé inicial para se começar a entender as transformações por que estamos passando neste fim de milênio. Em seu apartamento na Lagoa, entre dezenas de cadernos de informática, revistas especializadas e recortes de jornal, Ana Maria deu a seguinte entrevista:
Já é possível traçar o perfil psicológico do internauta brasileiro?
Ana Maria Nicolaci-da-Costa: Não gosto de ver a coisa por esse lado. Mas vamos lá. Quando a Internet começou a ser usada aqui no Brasil, as pessoas eram jovens, ligadas à universidade e havia - mesmo entre esses jovens - um divisor de águas: os curiosos e os medrosos. Não que os curiosos não fossem medrosos também, mas a curiosidade era maior do que o medo. O perfil inicial era esse. Depois, veio a difusão da rede. Com base em dados quantitativos da pesquisa do Cadê/Ibope e dos artigos publicados na mídia, comecei a observar o perfil sócio-econômico das pessoas. No entanto, outro aspecto despertava mais a minha atenção, que era o comportamento. As pessoas que estavam na rede eram tomadas por uma sensação comum de que estavam participando de algo realmente novo. E eu fui tomada por isso também. Elas eram curiosas e se sentiam participando de uma revolução.
E agora?
Ana Maria: No fim do livro, não tenho uma resposta definitiva, mas acho que a maior parte dos usuários hoje está se perguntando o quanto aguenta e até onde aguenta. E estão preocupados com questões de saúde (dores de coluna, tendinite) e com a questão da loucura. Essa é uma coisa importante. Através dos depoimentos que estão no livro, percebe-se que eles têm a sensação de que estão experimentando uma novidade, mas não têm a consciência de que uma coisa nova desperta sentimentos novos. Então duvidam dos próprios sentimentos. Duvidam, por exemplo, da sensação de estarem íntimas de uma pessoa que nunca viram. Aí surge o medo, o pânico. E quem está de fora diz: Ele está louco, está viciado, saindo do mundo. Não é nada disso. Vício é uma coisa negativa.
Como assim?
Ana Maria: Não quero usar categorias antigas para falar disso, porque elas rotulariam a experiência na Internet como patológica. E não acho que isso seja patológico. Detesto essa história de vício, por exemplo. As pessoas ainda não conseguiram me convencer de que há um vício. Eu pergunto: é um vício ou um barato, uma curiosidade, que no momento é excessiva? Nós ainda não conseguimos erigir defesas para lidar com isso. Mas vamos, da mesma forma que nossos antepassados erigiram defesas para viver nas grandes cidades.
Os jovens têm noção de que isso tudo é realmente novo?
Ana Maria: Alguns sim, mas a maioria não. Não têm a consciência, inclusive, de que são privilegiados, porque iriam entrar num mercado de trabalho fechado e, de repente, abriu-se um mundo novo para eles. E são eles que estão no comando.
Que outra invenção tecnológica pode ser equiparada à Internet? A TV, o rádio?
Ana Maria: A televisão gerou uma mudança enorme nas relações familiares. Antes dela, as pessoas se reuniam em volta do rádio. Quando a TV chegou, ocupou lugar central na sala. E mudou a interação na família. Mas não acho que a comparação da rede seja com a TV. Acho que o telefone, sim, criou coisas semelhantes à da rede, porque ele é interativo, encurta distâncias. Na TV, você é passivo. Mas a comparação que realmente gosto de fazer é com a máquina a vapor, no século XIX, surgida na revolução industrial. Com o advento da máquina a vapor, surgiram indústrias, migração de mão-de-obra, formação de metrópoles. Ou seja, uma invenção tecnológica mudou a vida de todo mundo ao longo dos séculos XIX e XX. E surgiram sentimentos novos. A psicanálise não poderia ter surgido antes, porque a neurose é fruto da civilização. Não acho que a Internet vá ter ou esteja tendo impactos comparáveis à TV, ao rádio ou mesmo ao telefone. Acho que será muito maior.
Que efeitos essa nova revolução pode causar?
Ana Maria: A revolução industrial gerou tantos efeitos em cadeia, que originou até o casamento por amor. Antes, casava-se por contratos, visando lucro, manutenção de bens, etc. Com a pulverização decorrente das grandes metrópoles, começou a surgir essa coisa de casamento por amor. Quem estava lá, naquele momento, deve ter achado tudo muito esquisito. Assim como nós estamos
achando muito estranha essa história de pessoas se conhecendo através de chats.
A Internet está gerando pessoas mais individualistas?
Ana Maria: A rede está rompendo com uma forma de sociabilidade com que estamos acostumados. Mas, por outro lado, está criando uma outra forma, que é fantástica. Você pode partilhar coisas com pessoas que já conhecia e com pessoas que você provavelmente nunca viria a conhecer. Estamos numa fase de transição, sujeita a exageros, a resistências e à nossa muito natural incapacidade de lidar com isso.
Os sem-micro estarão alijados desta revolução?
Ana Maria: Quando surgiu o telefone, também era uma coisa exclusivérrima. Hoje em dia, com qualquer cartãozinho você faz uma ligação internacional. É óbvio que há muitos alijados, mas temos que discutir a estrutura de classes. Ela que exclui, não a Internet. Internet é tecnologia. Tecnologia não exclui, não inclui, não resolve, não faz nada.
O meio acadêmico resiste à Internet?
Ana Maria: Há muita resistência. Saindo da informática, da engenharia, enfim, das ciências exatas, há muita resistência. Os educadores ficam preocupados com sites pornográficos. Acho isso uma bobagem. Tem pornografia numa banca de jornal, numa locadora de vídeo, na própria TV. É óbvio que vai ter pornografia na rede. São seres humanos que estão nela. É verdade que o jovem às vezes confunde liberdade com ausência de limite. Mas isso não é novo. Aliás, isso é bem velho.
As pessoas têm medo da rede?
Ana Maria: Entre os próprios jovens, há muito medo. O discurso da mídia gera medo. O noticiário em geral não destaca as coisas boas que a rede oferece.
Qual o objetivo do livro e qual o público-alvo?
Ana Maria: A intenção ao escrever o livro foi dizer: vamos olhar para o novo, vamos tentar entender o novo naquilo que pode ser entendido no momento. Não é uma coisa definitiva, porque esse novo não está parando. Não sei quem é esse leitor-alvo. Tudo é novo. Mas eu o escrevi de forma a ser lido tanto por um leigo quanto por alguém que entende medianamente de informática ou, ainda, por uma fera em computador. Este último, por exemplo, certamente não parou para pensar em vários aspectos humanos que estão no livro. E para aqueles que usam medianamente, o que quero dizer é o seguinte: Você está sentindo isso? Pois é assim mesmo. Outras pessoas estão sentindo isso também.


