Mais leves que o ar
Desde a antiguidade, a humanidade sonhou com a possibilidade de ascender aos céus, imitando os pássaros e aproximando-se do infinito. Muitas idéias da antiguidade e da renascença intencionavam criar aparelhos que pudessem satisfazer esse arcaico desejo. Foi somente durante o século XVIII, com o primeiro vôo aerostático, que as fronteiras aéreas começaram a ser desbravadas. A partir de então, o balão torna-se mais frequente, culminando com suas primeiras experimentações no Brasil.
O historiador Vidal Costa, em sua recente publicação Visões Ascendentes - publicação da editora Aos Quatro Ventos - justamente resgata o universo dessas antigas tecnologias em nosso País, bem como as representações que a sociedade paranaense criou em torno desses exóticos aparelhos. Esse é um dos aspectos inovadores da pesquisa, ao abordar também a perspectiva do imaginário social. O livro é dividido em três partes, cada uma destacando um recorte cronológico e temático.
ReproduçãoCapa do livro Visões Ascendentes de Vidal CostaNa primeira parte, denominada de Balões Imaginários e Viagens Sonhadas, Vidal Costa resgata o rico filão da literatura clássica que esteve relacionada aos aeróstatos. Obviamente, o autor mais destacado é o francês Júlio Verne, com a sua maravilhosa capacidade de antecipação do futuro. Mas, além de seu aspecto de profeta tecnológico, o escritor torna-se, a partir do século XIX, um referencial imaginário no que se refere à exploração científica, que alguns estudiosos denominaram efeito Verne. Exemplo disso foi o romance Dr. Benignus (1875), cuja ambientação da exploração ao incógnito brasileiro é acompanhada de um dirigível, bem aos moldes do mestre francês.
O segundo capítulo, Primeiros Olhares, descreve as primeiras experiências no Paraná com aparelhos mais leves que o ar. Em 1876, recebemos a visita do artista mexicano Theodulo Ceballos, que foi tratado em suas apresentações como um verdadeiro herói. Já em pleno novo século, tivemos o conhecido episódio da demonstração aerostática da espanhola Maria Aída. Sua ascenção com o balão Granada, a partir do Passeio Público em Curitiba, foi acompanhada de uma grande multidão, até acidentar-se nas torres da Catedral.
A última parte, com o sugestivo título de A Miragem Redescoberta, trata dos famosos dirigíveis, e suas triunfais passagens pela América do Sul. Esses aparelhos constituíram o auge da experiência aérea, sendo melhor desenvolvidos na Alemanha, em fins do século XIX, pela companhia do conde Zeppelin. Dos seus primórdios, utilizado como arma de guerra, até o seu aperfeiçoamento como transporte de passageiros, essas aeronaves detiveram grande atenção das massas e da mídia. Particularmente, nosso Estado foi visitado por dois representantes da tecnologia germânica, o Graff Zeppelin (1933) e o Hindenburg (1936). Esse último, em particular, gerou uma grande comoção em nossa cultura local, a ponto de tornar-se referência artística do passado sulista. Mas que também gerou algumas intrigantes falsificações fotográficas, analisadas em detalhes no livro.
Exóticos produtos da tecnologia e do engenho humano, os aeróstatos também são dependentes do contexto cultural em que são gerados, percebidos pelo historiador Vidal Costa como pontes cujos extremos podem conduzir para longe de uma paisagem cotidiana, em direção a miragens de romantismo. Mas estas não são necessariamente desligadas do universo da técnica, abraçam-no ou, talvez, constituíam-se mesmo em seu interior.Johnni Langer
Ilustração de M.M. Riout e De Mountaut para Cinco Semanas em um Balão, de Julio VerneEspecial para Folha Ciência





