Ninguém poderá acusar Chico Buarque de ter voltado americanizado. Na capa de seu novo CD ele sofreu, sim, uma miscigenação, mas ela veio de outros continentes: Europa, Ásia e África. A metamorfose, operada num Macintosh, é obra de Gringo Cardia, responsável pelo projeto gráfico do disco, intitulado ‘‘As cidades’’, que deve chegar às lojas esta semana.
A capa mistura feições multirraciais com características marcantes do compositor, como o sorriso ‘‘Colgate’’ e os cintilantes olhos azuis. O resultado é um Chico Buarque universal, quase onipresente; um homem ao mesmo tempo triste e alegre, acanhado e expansivo, espontâneo e encabulado. Na prática, o que Gringo fez foi ‘‘samplear’’ imagens de pessoas, tiradas das mais diferentes revistas. Com o computador, harmonizou os semblantes, tirando uma boca aqui, botando uma sobrancelha ali.
A capa também reflete a universalidade das 11 canções, a maioria inéditas, compostas por Chico para ‘‘As cidades’’. Seu último CD com músicas originais foi ‘‘Paratodos’’, de 1993, que também teve capa produzida por Gringo, e com a qual ele recebeu o prêmio Sharp de melhor projeto gráfico. Na época, ele ainda não tinha descoberto as maravilhas da informática.
‘‘Meu Mac era uma tesoura’’, brinca o artista gráfico. Para Gringo Cardia, tecnologia tem que ser ferramenta de apoio, e não protagonista. Os efeitos poderiam ser criados no papel, mas nunca em tempo tão curto.
Na contracapa de ‘‘As cidades’’, Chico Buarque retorna às origens do Brasil: o compositor surge como um índio, meio brasileiro, meio peruano, bem moreno e com grandes olhos cor de ardósia. Não é exatamente uma imagem risível, tampouco sombria. É incômoda. A intenção foi (re)criar imagens bem humoradas, que não fossem satíricas, e que causassem uma certa estranheza. Os rastros deixados pela interferência do computador, mais precisamente do software Photoshop, não ficam claros. Em todas as imagens que compõem o disco, aliás, os efeitos informatas são sutis. Para Gringo Cardia, computador é um instrumento, não um efeito:
‘‘Minha intenção foi realçar as características do Chico, não do computador. Se os traços dele ficassem sutis demais, as pessoas não entenderiam.’’ Antes de chegar à versão final da capa, Gringo teve outras idéias. A primeira delas foi usar uma das fotos que o fotógrafo Murilo Meirelles tirou do próprio Chico. Mas o fotografado não gostou da idéia.
‘‘As fotos são lindas, mas o Chico não quis’’, diz Gringo. ‘‘É engraçado porque todo mundo quer parecer bonito, mas o Chico, não. Ele quer parecer legal.’’
A segunda idéia, que até as vésperas da finalização do projeto era considerada a definitiva, mostrava roupas espalhadas pelo chão, que remontavam, de alguma forma, aos hábitos e às referências cariocas. Mas quando Chico finalizou a penúltima música do disco - chamada ‘‘Sonhos sonhos são’’, inspirada no romance ‘‘La vida es sue¤o’’, do espanhol Pedro Calderón de la Barca - o projeto sofreu uma reviravolta. O compositor achou que a capa estava muito centrada no Rio de Janeiro, diferentemente do disco, e pediu a Gringo que ampliasse o conceito.
‘‘Fiquei inseguro de sugerir a nova idéia, porque achei que era pop demais para o Chico, mas ele topou’’, conta Gringo, que contou com a ajuda de três assistentes: Leonardo Eyer, Marcos Leme e Fabio Arruda. ‘‘Fizemos a nova capa em um dia e meio. Sem computador, isso seria impossível.
Se na capa do CD os efeitos de computador não chegam a espantar, nas entranhas do micro eles pesam. Cada uma das quatro imagens da capa ocupa 60Mb, o equivalente a umas 75 mil páginas de enciclopédia. A imagem do índio, para se ter idéia, só chegou à sua versão final depois de passar por 12 camadas (ou layers, para os mais informatas).

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