ENTREVISTA
Limites éticos são imprescindíveis
DivulgaçãoJeremy Rifkin: ‘‘A biotecnologia transforma os seres vivos, coisas que levaram milhões de anos para se transformarem’’Jeremy Rifkin é consultor de chefes de Estado e considerado uma das 150 pessoas mais influentes na política governamental americana. É autor de 14 obras sobre os impactos das mudanças científicas e tecnológicas na economia, na força do trabalho, na sociedade e no meio-ambiente. Seu best seller ‘‘O fim dos empregos’’ antecipou as consequências da tecnologia no mercado de trabalho. Em sua passagem pelo Brasil, para o lançamento de ‘‘O Século da Biotecnologia’’, Rifkin conversou com a Folha. A seguir, os principais trechos da entrevista, daquele que foi rotulado de profeta do medo.
A questão ética é o primeiro grande desafio do novo século biotecnológico?
Sim, porque a biotecnologia permite transformar os seres vivos, coisas que levaram milhões de anos para se transformarem. Isso dá ao homem um poder incrível, a partir desse novo conhecimento, dessa nova informação. É a coisa mais extraordinária que aconteceu no mundo natural. Esse conhecimento fica com instituições, organizações e companhias que podem manipular coisas que a natureza fazia anteriormente. Eu quero saber agora o fim disso.
Isso não é somente um começo de um processo de transformação?
É o começo de uma nova era, do período mais significativo desse novo milênio. Talvez seja a transformação mais fundamental de toda história da natureza e da humanidade. Entretanto, resta saber como vamos usar e fazer com essa transformação. Atuaremos como um deus, ou atuaremos responsavelmente dentro das organizações?
Uma outra grande mudança no conhecimento é o Projeto Genoma Humano, avaliado em 3 bilhões de dólares. Somando o resultado desse Projeto com os novos rumos da biotecnologia, o que isso pode resultar?
O Projeto Genoma vai permitir a leitura do código genético de todos. Então pode ser bom para evitar doenças e antecipar algum problema que posso ter no futuro. O lado ruim, é que eu vou poder ser discriminado pelo meu patrão. Ele pode fazer uma seleção genética dos melhores profissionais. O conhecimento dos genes pode ficar de posse de algumas grandes companhias poderosas, elas vão deter a liberdade e a exclusividade no tratamento de certas doenças genéticas. Isso é muito perigoso.
Quais os caminhos que o senhor visualiza no século biotecnológico?
Vamos seguir dois caminhos. Um mais direto, mais pesado. Você pode mexer na genética e isso pode ter consequências funestas no futuro, fazendo seleção de crianças e de feto e assim por diante. E vamos ter uma maneira mais softway de mexer na genética, mas de uma forma mais completa, holística e global. Entendendo todas as consequências, podemos ter um mundo novo natural e consistente.

GLOSSÁRIO
- Engenheirar: verbo usado para designar o trabalho de cientistas na manipulação genética
- Terapia do gene: inserção de genes externos em pacientes, numa tentativa de corrigir várias desordens genéticas
- Empresas genômicas: empresas caçadoras de genes
- Poluição genética: forma de destruir habitats, desestabilizando ecossistemas e diminuindo as reservas remanescentes de diversidade biológica do planeta
- Eugenia: ciência que se ocupa com o estudo de condições que tendem a melhorar as qualidades físicas e morais de gerações futuras, podendo envolver a eliminação sistemática de traços biológicos indesejáveis
- Sistema genético de castas: uma maneira de segregar pessoas por algum tipo de ‘‘risco genético’’
- Classe geneticamente desempregada: forma de discriminar pessoas menos adequadas ao trabalho, a partir de uma avaliação genética

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