Lendas urbanas invadem nossa CAIXA POSTAL
André Machado
Agência O Globo
Do Rio
Os chamados hoaxes e falsos alertas que chegam a todo instante em nossos computadores através do correio eletrônico assustam mas também divertem os internautas
Jacarés no esgoto. Dias que desaparecem no tempo. Encontros românticos no pós-guerra. Alertas de vírus capazes de assustar até o mais experiente hacker. Transplantes de órgãos misturados a golpes de boa noite, Cinderela. Pedidos de doações em nome de crianças com doenças terminais. Correntes exóticas.
Você já recebeu pelo menos uma dessas histórias na sua caixa postal. São as lendas urbanas e os hoaxes (boatos), pragas que acompanharam o advento do correio eletrônico e são capazes de infestar até listas de discussão das mais sérias.
E não importa quantos comandos de block sender você dê em seu mail pessoal, profissional ou webmail - elas sempre acabam voltando, trazidas dos confins do ciberespaço por algum amigo ou colega ainda capaz de acreditar que celulares vão ser distribuídos de graça ou que um vírus incluído no screensaver do desenho Vida de Inseto vai detonar seu HD. Algumas são bem-humoradas, como a do guia de sobrevivência contra o ataque de uma anaconda, mas outras...
A Internet, é claro, não inventou as lendas urbanas. Elas estão aí desde que o homem das cavernas exagerou pela primeira vez o tamanho dos dentes-de-sabre do tigre que caçara. O presente repórter lembra-se de ter ouvido pelo menos uma bem antes de a Rede pegar mesmo no País: a história do sujeito que conheceu uma mulher escultural, que aceitou de primeira seu convite para ir para a cama. No dia seguinte, ele acorda e vê escrito com batom no espelho do motel: Bem-vindo ao mundo da Aids. Na Web, a historinha ganhou uma versão oposta - a da mulher que recebe uma caixinha de anel com a mesma mensagem dentro.
Já a célebre história da receita dos biscoitos Neiman-Marcus me foi originalmente narrada há anos por um fotógrafo numa viagem na barca Rio-Niterói. Ele jurou que havia comido os tais biscoitos num restaurante dos EUA e que, após pedir a receita e perguntar quanto custava, recebeu como resposta dois-cinco-zero. Imaginando que a quantia era US$ 2,50, estendeu as notas, mas, ao ser informado de que a receita custava US$ 250, revoltou-se e avisou: pagaria, mas iria jogar a receita na Web. O resto... é hoax.
Ah, já para mim a maior palhaçada foi aquela história do argentino sem rim, diz o jornalista Leonardo Pimentel. O sujeito ia a um bar, conhecia uma garota, tomava uns birinaites e apagava. Acordava pelado, numa banheira de gelo, sem os rins.... Outra muito boa que rolou há uns dois anos foi a das tatuagens com chicletes que teriam LSD.
Em termos de drogas, aliás, a criatividade não tem limites. Encontram-se na Internet desde histórias sobre sapos do Arizona que os estudantes lamberiam para ficar ligados ao conto da babá que, numa viagem alucinante, põe o bebê no forno.
Tem também aquela da água que você bota para ferver no microondas e explode na sua cara, lembra a professora Dalva Sartini. E a que alerta para o perigo do uso do telefone celular na chuva.
E os hoaxes históricos? Terão os leitores recebido a história do garotinho que salvou um coleguinha que se afogava numa praia escocesa? O pai do menino salvo, que era rico, propôs ao humilde pai do salvador dar a este educação esmerada. Ele então pôde realizar o sonho de ser médico e, mais tarde, salvou a vida do filho daquele que o resgatara na praia há muitos anos. O médico seria Alexander Fleming, descobridor da penicilina, e o quase afogado, Winston Churchill. Comovente, mas fake.
Recebi também uma que provava por a + b que desodorantes antiperspirantes provocavam câncer nas mulheres, conta a assessora da White Martins Andréa Petti.
Existem, por outro lado, aquelas histórias que têm um fundo de verdade. Como a de que o empresário William Waldorf Astor contratou o primeiro gerente de seu famoso hotel Waldorf Astoria, em Nova York, como uma forma de recompensá-lo por sua gentileza. O gerente em questão, George Boldt, oferecera seus próprios aposentos ao casal Astor certa madrugada, no hotel que então dirigia.
Não se deve esquecer ainda os hoaxes de doenças - como o que menciona a menina com câncer e pede doações para pesquisa médica -, nem os falsos alertas sobre vírus. Um dos mais recentes é o do Daisy Chain, em que o internauta recebe uma mensagem dizendo que seu PC está infectado e que ele tem dez minutos para desativar o vírus segundo as instruções contidas no texto.
Haverá quem ainda acredite nessas histórias? O depoimento do internauta M.R. não deixa dúvidas:
Aquela do uruguaio foi o máximo! Tinha até a foto em *.JPEG do cara. Ele se chamava E-mail Rodrigues, estava na carteira de identidade. Era sério! Provavelmente o pai queria registrar Emanuel, Emaiel e o tabelião não entendeu...
É isso aí. Papai Noel existe, Elvis não morreu e teremos salário mínimo de US$ 100.





