Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que das 40 mil crianças que morrem diariamente no mundo, 7 mil são vítimas de diarréia aguda, mal que pode ser evitado pelo aleitamento materno.
Atentos a isso, pesquisadores da universidade de São Paulo desenvolveram estudos para identificar os mecanismos de proteção que o leite materno confere às crianças e identificaram as bases de defesa que o organismo adota contra a bactéria que provoca diarréia, a Escherichia coli. Os cientistas também estão começando a trabalhar em uma vacina contra diarréias infantis, que poderá vir a ser utilizada em crianças com menos de um ano de idade.
Os primeiros estudos sobre o assunto começaram há seis anos no Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas e se voltaram inicialmente para a comprovação da eficácia do leite materno no combate à bactéria. ‘‘Nesses primeiros trabalhos, bactérias Escherichia coli enteropatogências foram colocadas sobre camadas de células epiteliais humanas, em cultura, para simular o que aconteceria no intestino infectado’’, conta a imunologista Magda Carneiro Sampaio, coordenadora das pesquisas.
Em todos os ensaios, após um período de incubação, as bactérias aderiram-se às células, infectando-as. Mas, ao se acrescentar colostro humano (leite produzido nos primeiros dias de lactação) ao experimento, verificou-se o desprendimento das bactérias da membrana das células. A experiência comprovou o que clínicos e epidemiologistas já notavam há algum tempo: ‘‘além de evitar a desnutrição precoce, o leite materno protege mesmo as crianças contra infecções’’, afirma Sampaio.
Em colaboração com o bacteriologista luiz Trabulsi, também da USP, a equipe coordenada por Magda Sampaio conseguiu identificar e esclarecer os mecanismos que impedem a adesão da Escherichia coli às células do intestino. O leite materno - explicam os pesquisadores - contém anticorpos que neutralizam a ação da bactéria. Fazem parte do grupo de anticorpos da classe imunoglobulina A (IgA), justamente os mais abundantes no leite materno. ‘‘São anticorpos específicos que atuam junto às proteinas responsáveis pela adesão da bactéria às células do intesto - as chamadas intimina e BFP (Bundle Forming Pilli). Foram também identificados anticorpos que atacam outras proteínas das bactérias, causadoras de alterações e reações nas células da parede do intestino.’’
Os pesquisadores estão agora estudando a intimina, principal candidata a uma vacina contra diarréia em crianças. Além da intimina ter um papel vital na aderência das bactérias às células do intestino, testes têm mostrado que o colostro contém grande quantidade de anticorpos contra essa proteína.
A idéia para se chegar à vacina é inserir em uma bactéria não patogênica o gene da intimina, que já está bem caracterizado, e fazê-la produzir grande quantidade de intimina que será utilizada na produção de anticorpos para a imunização de crianças menores de um ano. As pesquisas para uma nova vacina estão sendo feitas por pesquisadores da USP em conjunto com cientistas do Imperial College, em Londres.

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