Se a revista fosse uma mulher, ela seria Jane Metcalfe; se Jane fosse uma revista, ela seria a ‘Wired’Jane Metcalfe é uma mulher morena, bonita, mãe de um filhinho de seis meses; ao mesmo tempo, é a mulher mais ‘‘wired’’ do planeta. Também, pudera. Fundadora e vice-presidente da revista ‘‘Wired’’ é presidente da EFF (Electronic Frontier Foundation) -
aquela, que vestiu todos os sites da Internet com a fitinha azul, símbolo da luta pela liberdade de expressão. Quer dizer: se a ‘‘Wired’’ fosse uma pessoa, ela certamente seria a Jane Metcalfe; e se a Jane Metcalfe fosse uma revista, ela seria (e pensando bem, é) a ‘‘Wired’’.
A revista mais influente da Alta Micraria foi lançada em julho de 1993, quando a Internet era uma rede obscura, usada apenas em universidades e centros de pesquisa. Na época, até pelo seu jeito de ser um tanto ou quanto fechado (bota fechado nisso!), a rede era um ponto de convergência, e a expressão máxima, dessa comunidade tecnologicamente antenadíssima.
A proposta da ‘‘Wired’’, já então, era ser o veículo, digamos, ‘‘ofi-
Jane participou do evento ‘Tecnologia da Informação’
em São Paulo
cial’’ desta comunidade - se é que se pode usar a palavra ‘‘oficial’’ em relação a algo tão porra-louca.
Mas este não era o Grande Problema. De acordo com Jane, que esteve no Brasil na semana passada participando de um seminário, o Grande Problema é que a comunidade em questão era unida, e gravitava em torno de um sistema de comunicação mais dinâmico do que qualquer coisa de que se tinha visto; sua característica primordial era, exatamente, a comunicação instantânea. Ora, como fazer com que se interessasse por uma revista... ainda por cima mensal?!
A solução encontrada por Jane e por seu velho amigo Louis Rosetto (que, com Mrs. Rosetto, forma uma dupla de designers da pesada) foi dar à publicação
um visual radical e uma linha editorial completamente diferente de tudo o que existia no mercado. O design conta com um número aparentemente infinito de cores - na verdade, apenas 26 cores especiais - mais as famosas listas cor-de-laranja.
Tão famosas, aliás, que a própria cor, criada para a revista, é hoje conhecida no mundo das artes gráficas como ‘‘Wired Orange’’. O que era revolução já virou tradição, e é hoje copiado por todas as revistas do mundo que querem ser iguais à ‘‘Wired’’quando crescerem. Mas se o visual é imitado, às vezes até com certo sucesso, a linha editorial nunca foi igualada, já que focaliza muito mais idéias, opiniões e teorias do que produtos - e
isso não é para quem quer, é para quem pode.
Suas matérias enormes assinadas pelos maiores gurus da indústria são um verdadeiro ‘‘must‘‘literário da comunidade. Como mentora da revista, Jane Metcalfe é pessoalmente responsável por boa parte deste espírito tech, ao transpor para a revista as grandes bandeiras da gallera: absoluta liberdade de expressão, liberação total dos sistemas de criptografia, fim dos monopólios dos átomos, poder total aos bits...
Quando não cria novos ídolos, a ‘‘Wired’’ destaca os Grandes Nomes, aqueles que todos os micreiros respeitam, como Nicholas Negroponte, diretor do Media Lab do MIT (que assina a última página da revista), Phil Zimmerman (que se transformou no grande herói da criptografia com o seu software, o PGP), os garotos da Netscape. A revista também aponta os vilões da comunidade, e não teme escrever seus nomes com todas as letras, ainda que isso lhe custe alguns anúncios: Bill Gates, por suas táticas monopolistas, é o alvo favorito, mas até Bill Clinton já entrou na dança, por tentar censurar a rede. Perguntei a Jane se alguma vez a ‘‘Wired’’ tinha apostado errado, dando destaque a alguma coisa que fracassou: ‘‘Nosso índice de acerto é enorme’’, respondeu, depois de pensar um bocado. ‘‘Mas dois exemplos de foras que demos foram os Zippies (Zen Inspired Pagan Professionals), que substituiriam os yuppies mas foram só um fenômeno de marketing, e a Rocket Science, que foi capa porque achamos que ia ser a maior editora de games do mundo, e não deu em nada.
Hoje a ‘‘Wired’’ está com problemas. Seu site na rede, o HotWired, depois de um grande sucesso inicial, perdeu o interesse, e a oferta pública de ações da revista na bolsa de Nova York foi uma decepção. Jane discorda da opinião geral e diz que, apesar do fracasso mercantil, a ‘‘Wired’’ nunca esteve melhor. A culpa seria da onda que está se fazendo em torno da rede e da inveja das outras revistas, que nunca se aventuraram a oferecer ações na bolsa.
Verdade ou não, o fato é que há mudanças radicais à vista. A primeira já pode ser conferida na Internet, onde um novo site www. wired.com, bem mais dinâmico, substituiu o velho HotWired; com a revista deve acontecer algo semelhante. Jane deu um sorriso enigmático quando perguntei o que vai mudar e, de início, se recusou a responder. Depois de muita insistência, no entanto, deu algumas dicas. Com vocês, em primeira mão, alguns toque sobre a nova ‘‘Wired’’:

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