Irradiação esteriliza tecidos para enxertos
Eliza Muto
Ciência Hoje
Uma conquista recente de uma equipe de médicos brasileiros traz novas esperanças para pacientes que sofreram queimaduras graves. No início deste ano, Divisão de Queimaduras do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade de São Paulo (USP) montou o primeiro banco de tecidos esterilizados por irradiação do país. O banco poderá armazenar pele, ossos, cartilagens e tendões. A novidade é que todo material sofrerá um tratamento especial que reduzirá a zero o risco de contaminação do paciente por doenças contagiosas, como Aids e hepatite.
A Agência Internacional de Energia Nuclear escolheu o Hospital das Clínicas para sediar o banco de tecidos pelo pionirismo da instituição no tratamento de queimaduras, serviço que acaba de completar 50 anos de atividade. Outra vantagem que motivou a escolha foi juntar em uma única entidade - a USP - o HC e a infra-estrutura do Instituto de Pesquisas de Energia Nuclear (Ipen). Essa parceira facilita bastante o trabalho, explica o cirurgião plástico Carlos Fontana, médico-chefe do serviço de Queimaduras do Hospital. Assim que um tecido for retirado, será preparado no HC e, em seguida, levado ao Ipen para ser esterilizado por irradiação. Só então o material será transportado até o banco de tecidos no HC para ser armazenado.
O banco de tecidos está sendo montado com equipamentos doados pela Agência Internacional de Energia Nuclear. Além de evitarem o risco de contaminação do paciente, os aparelhos permitem uma melhor conservação do material. Se atualmente o banco de pele do hospital tem capacidade de manter os tecidos em condições de uso por no máximo 20 dias, com os novos equipamentos a pele poderá ser conservada, a 80øC negativos, pelo período de um ano. Além disso, o novo banco poderá conservar tecidos em maior quantidade. A desvantagem é que a pele não é viva, já que a irradiação mata as bactérias, mas também as células; acrescenta o cirurgião.
Carlos Fontana ressalta a importância do banco para pacientes com queimaduras graves, que precisam de enxertos temporários para proteger a região afetada contra infecções e perda de líquido e proteínas. Os pacientes com queimaduras de terceiro grau, em que ocorre a destruição total da pele, precisam de uma cobertura temporária para melhorar sua sobrevida. A nova pele dá essa proteção, favorecendo o tratamento, avalia.
Infelizmente, no Brasil, os doações de enxerto de pele ainda são insuficientes para atender a demanda. A causa não está relacionada apenas à escassez de órgãos, mas também à falta de informação e ao preconceito por parte dos familiares dos mortos, que temem uma suposta mutilação do cadáver. A doação de pele é tão importante quanto a doação de coração. Muitas vezes as pessoas morrem por falta de pele, já que é impossível viver sem ela, afirma o cirurgião.
No momento, Fontana não considera viável a utilização de pele artificial em pacientes do HC. Todo hospital que trabalha com pele artificial tem um banco de tecidos bem estruturado. A montagem de um banco de tecidos esterilizados é o nosso objetivo agora. Não podemos pular etapas, afirma o cirurgião.
Conhecida como Íntegra, a pele sintética consiste em uma estrutura tridimensional de colágeno, semelhante à derme, que permite o seu preenchimento pelas células humanas e pode ser removida posteriormente. Produzida nos Estados Unidos, a pele artificial é bastante cara, custando US$ 4 o centímetro quadrado. O custo é muito alto. Nós não temos mecanismos que garantem o ressarcimento desse material, avalia o cirurgião.





