IPT ensina a curtir couro de peixe
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de julho de 1997
Liana John Agência Estado 
Arquivo FolhaBom tamanhoPara melhor aproveitamento das peles, o peixe não pode ter menos de 8 cm de largura. Acima disso, quanto maior melhorUm almoço à base de pintado na brasa gerou uma nova tecnologia, hoje disponível para a indústria de calçados e acessórios. Ao observar a pele resistente do pintado assado, dois especialistas em curtimento de couros resolveram testar as possibilidades de uso industrial. Manoel Antonio Chagas Jacinto e Walter Ferrari, do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), (http://www.ipt.br) , núcleo de Franca, interior de São Paulo, já conheciam a tecnologia para curtimento de pele de rã e começaram pesquisando as possibilidades do curtimento da pele de tilápia, um dos peixes mais comuns dos reservatórios de hidrelétricas e de abastecimento de água do país.
Manoel Jacinto prosseguiu as pesquisas sozinho e, em um ano, dominou a tecnologia, aplicável a peixes de água doce ou salgada, com escamas. Os peixes sem escamas, como o tubarão e o próprio pintado, demandam um cuidado maior no curtimento, que fica muito trabalhoso para a indústria. O processo de curtimento de peles de peixe transforma um refugo em produto, explica o pesquisador do IPT. Se imaginarmos as dimensões do mercado de pescado no País, que é imenso, teremos uma idéia das possibilidades desta tecnologia.
Atualmente, Jacinto promove cursos de treinamento de pesquisadores, para multiplicar o ensino da tecnologia para curtimento de pele de peixe em todo o Brasil. Além da tilápia, eles fazem o curtimento de pele de tambaqui e pacu, dois peixes grandes de rio hoje muito utilizados em pesqueiros e em pequenos reservatórios de fazendas. Existem, porém, experiências de pequena escala com dourado, pirapitanga e piracanjuba, três outros peixes preferidos dos pescadores.
Banhos A grande vantagem da pele de peixe, para a indústria, é a disposição das fibras de colágeno em paralelo. Isso dá grande resistência com pouca espessura e torna o couro fácil de trabalhar. A desvantagem, por enquanto, é a flutuação da demanda do mercado, extremamente dependente da moda na utilização de couros diferentes, como estes. Ainda estamos pagando o preço do pioneirismo, mas o potencial do mercado é muito bom, observa Manoel Jacinto. Ele tem investido, sobretudo, nas indústrias de pesca que fazem filetagem e vendem peixe em filé, embalado e sem pele. Ao tirar o filé, eles já tiram a pele inteirinha, própria para o curtimento, acrescenta.
Esta pele passa sucessivamente por seis banhos e processos - caleiro, desencalagem, purga, desengraxe, piquel e curtimento ao cromo - para se transformar em couro. Destes processos, um dos mais importantes é o desengraxe, onde a gordura natural é retirada, o que evita que o couro fique cheirando a peixe, depois de pronto. O curtimento inclui ainda processos de neutralização de pH, tingimento, engraxe, secagem e acabamento, antes do produto entrar nas fábricas de calçados e acessórios.
Em geral, há um limite de tamanho para bom aproveitamento das peles: o peixe não pode ter menos de 8 cm de largura. Acima disso, quanto maior, melhor. Daí a preferência pelo tambaqui e o pacu, dois peixes grandes e largos.
Maiores informações sobre a tecnologia ou as datas dos cursos de curtimento com Manoel Jacinto, no endereço jacintofrancanet.com.br ou no telefone (016) 720-1033.


