Se o sonho de toda banda alternativa é justamente deixar o porão, uma grande possibilidade está, hoje, paradoxalmente, num meio ainda alternativo, a Internet. Um site com menos de um ano de operação, o Neoradio (www.neoradio.com), é uma das formas de divulgação de cerca de 40 artistas novos - alguns nem tanto, como Pavilhão 9 e Inocentes - que lá têm suas letras. É possível colocar até cinco músicas, disponíveis para quem tem um programa Real Audio no computador, agenda de shows e, digamos, seus pensamentos vivos.
Nomes como Funk Trunk, Jeff Izaki e Cynthia Lucci utilizam o meio. ‘‘O site funciona para quem nunca ouviu falar na banda. Não digo que seja indispensável, mas já comercializamos discos por meio dele’’, diz Daniel Xingú, vocalista do Funk Trunk.
Edu Cayres, responsável pelo site junto com Fábio Marão, vê outra utilidade na Neoradio. ‘‘Conheço produtores musicais e sei que eles não ouvem as fitas que as bandas enviam. Mas eles visitam o site, e lá podem ouvir essas mesmas bandas, anônimos e sem qualquer pressão.’’ Embora a novidade não tenha chegado aos ouvidos dos produtores das majors, alguns selos menores estão atentos. ‘‘Considero esses sites ferramentas fundamentais. É mais cômodo para o produtor, não precisamos ficar ouvindo fitas inteiras, às vezes apenas trechos de músicas são suficientes’’, diz José Luiz ‘‘Crazy’’, gerente artístico da Paradoxx, que fechou contrato com uma banda de Recife, a General Frank, depois de ouvi-la na Internet. O Neoradio não exclui gêneros, desde que os artistas sejam brasileiros.
Para este semestre, seus sócios acreditam num boom do serviço. ‘Planejamos estar com 250 artistas até o fim do ano’’, diz Cayres, que afirma ter 6.000 usuários cadastrados e 15 mil visitas mensais ao site. O site parece estar se revelando bom negócio para seus sócios, mas eles rejeitam a idéia de estendê-lo para outras áreas. ‘‘Temos afinidade com música. Se fizéssemos um site de poesia, por exemplo, teríamos um envolvimento meramente comercial com ele’’, diz Cayres. É raro encontrar discos dos alternativos nas lojas (exceção da Pops, na rua Teodoro Sampaio, em Pinheiros), mesmo com os artistas prensando, em média, mil CDs de seu trabalho. A possibilidade de vendê-los por meio do site, portanto, não é menosprezada.
Rock, MPB, funk. Embora com certa primazia para o primeiro, a voz dos artistas do site Neoradio é polifônica. Enquanto Cynthia Lucci tocou com meio mundo do rock paulista, o carioca H Froidi usa métrica poética (‘‘Não preciso/Te dar um sorriso/Pra você ficar de sobreaviso/Sei que você tem juízo’’) e toma emprestada uma letra de Torquato Neto em seu CD-demo ‘‘Obradobardo’’. O soul à James Brown aparece com o Acidfunk - cujo vocalista é o ex-dançarino de Marisa Monte, Bokassa - e o pop funqueado é a tônica do disco de Jeff Izaki.
Izaki foi se lembrar de ‘‘Jorge Maravilha’’, canção assinada por Julinho da Adelaide, pseudônimo usado por Chico Buarque em tempos do então presidente Garrastazu Médici, que talvez nem mais o próprio Chico lembre, e também mandou para o CD.
Há alguns artistas mais conhecidos no site, como Laura Finochiaro, rainha do underground paulista, que disponibilizou faixas de seu ‘‘Ecoglitter’’, e o conjunto de rap do Grajaú Pavilhão 9, com músicas de seu disco pela Paradoxx.
Como não se trata de um selo, Cayres e Marão, os sócios do site, dizem não fazer peneira com os artistas que os procuram. ‘‘Nós precisamos de um mínimo de qualidade técnica nas gravações que os artistas querem colocar no site’’, diz Marão.
Um dos links do site é o Neozine (www.neozine.com), um fanzine eletrônico produzido pelos próprios Cayres e Marão, com notícias de seus artistas. Lá, mantêm algumas íntegras de shows, como o da estréia de ‘‘Universo Umbigo’’, do Karnak, em São Paulo, e longas entrevistas, como uma de nove minutos com Clemente, líder do Inocentes.

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