Era pós-PC
Nos últimos meses, os principais fabricantes de microcomputadores PC investiram em equipamentos de acesso à Internet, baseados em outra linha de processadores, usando outros sistemas operacionais diferentes do Windows. A Gateway, Compaq e Dell são apenas algumas das empresas que estão investindo em projetos semelhantes. Nenhuma delas faz questão de fazer muito barulho, pois sabem que vão entrar em choque direto com a Microsoft. Além dos fabricantes de PC, a SUN Microsystems, um dos principais rivais da Microsoft, está também investindo em dispositivos não-PC ou não-Windows. Desde o surgimento do PC, com o MS-DOS e depois o Windows, a Microsoft vem exercendo controle sobre o mercado de sistemas operacionais, ditando preços e condições para os fabricantes. Como todo mundo estava ganhando muito dinheiro, ninguém se incomodou, porém, na medida em que os preços de microcomputadores despencaram, acompanhados pela redução da margem de lucro, os fabricantes começaram a ficar incomodados. Na mesma proporção da redução das margens, aumentava o poder de negociação da Microsoft na distribuição do Windows. Em alguns casos, os fabricantes de PC se sentem reféns da Microsoft, com muito pouco poder de escolha e negociação e esperam anciosamente a hora de dar o troco.

Pra onde leva o túnel?
Para alguns desses fabricantes que já se posicionaram contra a Microsoft na ação judicial antitruste conduzida pela Justiça americana, a possibilidade de um grande mercado para equipamentos não-Windows-PC soa como um grito de liberdade. Os recentes esforços e investimentos estão sendo vistos como um túnel que está sendo cavado, que os conduzirá à liberdade, além das fronteiras que os cercam. Se isso acontecer, mesmo que decidam continuar usando também os produtos da Microsoft, o poder de negociação estaria com a indústria de hardware e não mais com a Microsoft. Mas é pura conjectura. Ninguém sabe ao certo se o ‘‘túnel’’ vai mesmo conduzir os fabricantes para o lugar certo. É bem provável que o final será feliz para ambos os lados, com um equilibrado e mais justo poder de negociação. Ainda que exista um grande movimento para tirar o mercado da Microsoft, existe também o consumidor. Os fabricantes de microcomputadores só não podem esquecer de dar aos consumidores o que eles querem. Para uma parcela sigfinicativa de usuários que não se identificam com a Microsoft, existem uma outra, muito maior, que torce para que o reinado de Bill Gates III se perpetue até a eternidade.

Intel na era pós-PC
A Intel está trabalhando em uma nova estratégia de marketing para mudar o seu posicionamento no mercado. Até então, os produtos dos concorrentes Cyrix e AMD eram vistos pelo mercado como cópias pouco confiáveis e de menor desempenho. Entretanto, as duas empresas, principalmente a AMD, conseguiram mudar a imagem e hoje assumiram uma respeitável posição no mercado, com qualidade e preços inferiores aos da Intel. A Intel já percebeu que o selo ‘‘Intel Inside’’, usado nos micros que utilizam seus processadores para adicionar valor à marca, já não é tão eficiente. Para muitos usuários a grife Intel já não tem o mesmo valor, o preço passou a exercer muito maior influência na decisão de compra, e equipamentos com microprocessadores AMD e Cyrix são mais baratos. Duas tendências estão indicando um novo caminho para a Intel. Primeiro, o dos dispositivos Internet não-PC e, em segundo, a tendência da interligação de todos os dispositivos eletro-eletrônicos (domésticos e comerciais) em uma uma rede local, que por sua vez estará ligada na rede Internet. Diversas vezes mencionei nessa coluna, o futuro na conexão na Internet de equipamento de áudio, TV, home theater, forno microondas, refrigerador e muitos outros dispositivos. Para que isso aconteça, todos esses equipamentos necessitam de microprocessadores. A Intel está trabalhando no projeto de um microprocessador integrado (que controla vídeo, memória e periféricos), destinado a equipar dispositivos Internet e eletroeletrônicos diversos, baseados ou não no Windows. O processador foi apelidado de ‘‘Timna’’ e deverá estar no mercado no ano que vem. Até mesmo a AOL está apostando nos dispositivos Internet não-Windows e investiu mais de US$ 800 milhões na Gateway, um dos principais fabricantes de PC nos Estados Unidos.

Lixeira Inteligente
A primeira impressão é a de se tratar de alguma idéia maluca, de alguém que não tem o que fazer. Entretanto não é o que pensam os que investiram muito dinheiro para que a tal lixeira fosse construida. A NEC é a principal investidora da lixeira doméstica inteligente. A reciclagem e tratamento adequado do lixo é uma grande preocupação, principalmente nos países desenvolvidos. A lixeira inteligente faz a seleção automática do lixo. O usuário simplesmente joga uma embalagem no lixo, e através de sensores e de scanners de código de barra, a lixeira identifica o tipo de lixo, e até mesmo o nome do produto, destinando cada um para o seu respectivo local de armazenamento. Para nós, brasileiros, pode parecer estranho, mas muitas pessoas na Europa e Estados Unidos já fazem isso manualmente. O principal interesse nesse equipamento não é o de selecionar o lixo e substituir o trabalho manual, mas sim identificar o que as pessoas estão consumindo.

Garbologia
Isso mesmo! A análise do lixo é um tipo de pesquisa de mercado chamada observação indireta e é feita aqui nos EUA por pessoas chamadas garbologistas. Com a análise do lixo de residências, é possível determinar o perfil dos consumidores que residem na casa. A lixeira eletrônica estará enviando informações para os comerciantes da região onde a residência está localizada, e esses, por sua vez, podem fazer marketing segmentado, personalizado. Se a lixeira identificou que uma residência consumiu uma certa quantidade de vinho durante uma semana, o supermercado próximo pode enviar sugestões de novos vinhos, informações sobre produtos relacionados e promoções. Pode parecer loucuca, mas não para quem conhece pelo menos um pouco do mercado de pesquisas nos Estados Unidos. A intensidade e grau de detalhamento das pesquisas quantitativas e qualitivas aqui são impressionantes. Eu arriscaria dizer que o Brasil está algumas décadas atrasado em relação ao Estados Unidos no que diz respeito à tecnologia e aplicação da pesquisas de mercado.

Carlos Trindade é consultor em Sistemas de Informação e Internet e atualmente desenvolve pós-graduação em Marketing na Universidade de Berkeley, Califórnia.

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