Franklin Cornejo
France Presse
Produtos do mar, sopas, bebidas e ervas com propriedades medicinais foram ingredientes chaves na gastronomia dos incas, antigos habitantes da América do Sul, para os quais comer significava harmonizar o organismo e a natureza, segundo uma recente pesquisa sobre a cozinha incaica.
Na pesquisa, denominada ‘‘Cozinha nas nações confederadas do Tawantinsuyo’’, seu autor, oriundo dos Andes peruanos, Francisco Calderón Quillatupa, apresenta a noção não-ocidental de seus conterrâneos sobre a culinária incaica, que recolheu por meio da tradição oral.
O Tawantinsuyo foi o território inca e se estendeu antes da chegada dos espanhóis à América pelos atuais territórios de Colômbia, Equador, Peru, Bolívia e Chile. A sede do império esteve no departamento peruano de Cusco, considerado pelos incas como o ‘‘umbigo do mundo’’.
‘‘Os incas praticaram uma alimentação integral sob a palavra de ordem ‘o alimento é tua medicina’ que era assumida como fator de boa saúde, bem-estar familiar e tranquilidade social’’, diz Calderón Quillatupa.
Entre os alimentos chaves da dieta, o inca transformou a água - que era considerada veneno por ser caldo de cultivo de parasitas - em ‘azwa’ (bebida à base de milho), cujo consumo, de um a dois litros por dia, foi obrigatório em todo o império.
‘‘O azwa teve um papel importante porque controlou as pestes, os contágios de enfermidades ao manter limpo o estômago, e por outro lado ajudou o metabolismo e a assimilar os nutrientes dos alimentos’’, explica.
Os antigos sul-americanos incluíram em sua culinária variedades de mariscos e algumas entranhas de pescados na crença de que favoreciam a reprodução, assim como sopas que sob o nome de ‘‘chupes’’, compostos por leite, ovos, batatas e ervas aromáticas, eram o prato principal por seu alto valor nutritivo.
‘‘O chupe favorece o aumento de calorias e proteínas ao contrário da sopa ocidental que, ao ser tomada como primeiro prato, lava todo o suco gástrico de modo que os alimentos seguintes não sejam digeridos corretamente’’, assinala.
Os alimentos eram consumidos ‘‘em constante coordenação com a natureza, isto é, a ‘pachamama’, que era a natureza em seu conjunto: o sol, o ar e a terra; e que os historiadores se equivocam em chamá-los deuses, porque a natureza é uma só’’, esclarece o autor.
‘‘O respeito profundo, o contato direto e a não-poluição da natureza faz com que o ser absorva as energias puras e potentes’’, acrescenta.
O pesquisador assinala também que nas três refeições do dia não faltavam a batata cozida e ‘jamcha’ (milho assado) já que a falta disso ‘‘era como uma formosa mulher sem olhos’’.
Quanto à folha de coca, indica que é uma das razões - entre os indígenas - para que no império não tenham existido problemas em massa de desnutrição. Na atualidade os camponeses que mastigam coca conseguem ficar sem problemas extremos de saúde, apesar do abandono social e econômico de que padecem em grande parte dos Andes.Através de comidas integrais, os incas controlavam doenças e mantinham o antigo preceito ‘‘o alimento é a tua medicina’’
Cramen Kley/ Arquivo FolhaOs incas valorizavam a agricultura e a culinária e ainda hoje, nos Andes, são mantidos costumes que valorizam os ingredientes e o preparo das refeições

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