Identidade é revelada por computador
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de novembro de 1998
Bernardo Esteves Ciência Hoje 
Se as impressões digitais ainda são amplamente empregadas em todo o mundo para a identificação de pessoas, existem diversas outras técnicas que permitem reconhecê-las. Todas atuam identificando traços característicos e distintivos de cada um, que podem ser a voz, o formato da mão, o mapa dos vasos sanguíneos da retina ou o próprio DNA. Vêm juntar-se a esses procedimentos o reconhecimento pela íris, apontado recentemente em artigo da revista Science como a mais precisa das técnicas de identificação pessoal, e o reconhecimento de faces.
Neste último, um computador captura e lê a imagem do rosto da pessoa a ser identificada. A técnica ainda não apresenta índices de precisão tão satisfatórios quanto os dos outros métodos, mas deve se desenvolver muito nos próximos anos.
Reprodução/Ciência HojePara ser reconhecida pelo computador, a pessoa deve ser fotografada sob vários ângulosSua utilização poderá ter diversos fins. Ela poderá ser empregada em controles de identificação pessoal e no reconhecimento a longa distância, mas também terá usos policiais, como identificação de criminosos, inclusive através de retratos falados, e vigilância de espaços como bancos ou aeroportos. Poderá ser usada ainda para controlar a entrada em espaços de acesso restrito (clube, biblioteca, residências etc.) ou substituir as senhas de acesso a computadores. Por meio de uma câmera acoplada, a máquina reconheceria o rosto daqueles que estão autorizados a operá-la.
Em relação às outras técnicas de identificação pessoal existentes, o grande trunfo do reconhecimento de faces é a facilidade de apreensão da imagem. Não é necessário um visor ou um equipamento específico, explica Yuri Gitahy de Oliveira, que defendeu recentemente no Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais dissertação de mestrado visando descrever o estado atual da pesquisa no mundo sobre o tema.
Em métodos mais avançados como a identificação pela íris ou pela retina, o processamento dos dados é fácil, mas a captura da imagem é complicada, explica Márcio Bunte de Carvalho, que orientou Gitahy em seu mestrado. Basta que a pessoa esteja no campo de visão de uma câmera, completa Gitahy, que compilou e comparou os diversos métodos empregados no reconhecimento de faces e pretende elaborar um programa que desempenhe essa tarefa.
A literatura científica brasileira sobre essa técnica é quase inexistente. Na bibliografia de Gitahy, havia apenas uma obra em português, que ainda assim não abordava diretamente o problema da identificação. Ele analisou os principais programas de reconhecimento de faces existentes, alguns dos quais estão sendo usados comercialmente, ainda que em pequena escala.
Para que um computador reconheça uma face, é preciso que ele capture em primeiro lugar sua imagem. Surgem as primeiras dificuldades técnicas: a máquina, ao filmar alguém, deve saber recortar sua face, isto é, identificar um rosto como sendo de fato um rosto. Nessa etapa, chamada de segmentação da imagem, os programas procedem de maneira diversa. A capacidade de distinção pode surgir com a prática da identificação. Segundo Gitahy, os computadores aprendem a discernir a partir da análise de milhares de imagens com e sem rosto. Eles podem também proceder reconhendo padrões comuns a todos os rostos. Se o computador identifica dois olhos sobre um nariz e um nariz sobre uma boca, ele interpreta isso como sendo um rosto, diz.
Determinada a posição da face, surge uma nova dificuldade: a descrição dessa imagem. Mais uma vez, diversas técnicas têm sido utilizadas. Há programas que lêem o rosto em função da posição relativa de olhos, nariz e boca, por exemplo. Outros associam a imagem capturada a um modelo matemático. A escolha de um método determina a precisão da identificação e deve ser feita em função dos objetivos e da especificidade do programa.
Como fazer com que um computador reconheça uma pessoa se ela tiver mudado o corte de cabelo, se estiver com uma cicatriz ou se fizer careta ao ser filmada? Alguns desses obstáculos podem ser driblados por um método descritivo que leve em conta esses fatores. Um homem que tenha tirado o bigode continuará sendo reconhecido, se o critério de leitura for as proporções do rosto, exemplifica Bunte de Carvalho.
O problema consiste em encontrar um padrão de leitura suficientemente preciso. Carvalho reconhece que a modelização do reconhecimento de faces ainda não está consolidada. Na apreensão da imagem, fatores como a iluminação ou o ângulo da cabeça podem fazer com que o computador não reconheça uma pessoa.
A identificação propriamente dita se faz por comparação com um banco de dados. O computador armazena imagens das pessoas que é capaz de reconhecer. Para minimizar problemas como os de ângulo e iluminação, esse arquivo é composto de várias fotografias de uma mesma pessoa, tiradas de diferentes posições.


