César AugustoPotênciaO Iapar já desenvolveu 80 novas cultivares e foi responsável direto pela arrancada agrícola no Paraná a partir dos anos 70O Instituto Agronômico do Paraná - Iapar - já foi apontado como um dos pilares do desenvolvimento agrícola do Estado. Criado em 29 de junho de 1972 pela Lei Estadual 6292, o Instituto se destacou recolhendo conhecimentos tecnológicos e desenvolvendo projetos de pesquisa. O Iapar objetiva, além das pesquisas voltadas para a agricultura, formar e treinar mão-de-obra especializada.
Ao completar 25 anos, a instituição enfrenta uma nova realidade. O orçamento, os recursos humanos e a liberdade de gerenciamento se restringiram. Mas a potencialidade do Instituto permanece inquestionável para boa parte de seus pesquisadores.
‘‘O Iapar nasceu com uma proposta bastante diferenciada, que rompia com os padrões da época. O surgimento do Instituto veio de baixo para cima, com lideranças do setor produtivo e político estadual e regional pleiteando o desenvolvimento agrícola apoiado em uma base tecnológica própria’’, comenta Florindo Dalberto, diretor-presidente em exercício e um dos membros da primeira diretoria do Iapar.
Dalberto explica que a Instituição desenvolveu equipes multidisciplinares, organizou a estrutura para a operacionalidade de projetos e estendeu seus vínculos ao setor produtivo. Associado ao período de ‘‘milagre econômico’’ vivido pela economia do País, o Iapar obteve resultados positivos em sua fase inicial.
‘‘Os resultados foram quase imediatos, fizemos uma organização do conhecimento agrícola do Estado, o ‘Manual Agropecuário do Paranᒒ, ressalta Dalberto. A idéia, na época, era coletar a tecnologia existente para elaborar um modelo de desenvolvimento agrícola para o Paraná.
O Iapar elaborou trabalhos analisando a relação clima/solo - muito variável no Estado - com o manejo de culturas, desenvolveu técnicas de produção, rentabilidade e sustentabilidade. O impulso na agricultura do Paraná veio em decorrência disso.
Esta contextualização do período inicial é necessária para que se possa compreender a situação do Iapar hoje. A instabilidade com o final do ‘‘milagre econômico’’ colocou o País em crise financeira e afetou a instituição, segundo Dalberto. ‘‘O Iapar vive certa crise, parte dela financeira porque o Estado está menos poderoso para dar conta de todas as demandas sociais, não se tem mais bons salários, já não se compram equipamentos de última geração, não dá para capacitar o pessoal de forma adequada e os gastos operacionais básicos ficaram difíceis de gerenciar’’.
Questão de demandaPara Paulo Varela Sendin, coordenador adjunto de Planejamento do Instituto e funcionário desde 1974, o Iapar passa por uma situação que o obriga a chegar a um equilíbrio entre a demanda da iniciativa privada e o desenvolvimento tecnológico a longo prazo. ‘‘O Iapar tem que oscilar entre atender a demanda imediata e manter pesquisas que atendam a uma demanda social, ao mesmo tempo em que capacita seus pesquisadores.’’ O coordenador afirma também que a instituição não pode cair em extremos e perder sua credibilidade científica.
Rogério Cardoso, diretor adjunto da Diretoria Técnico-Científica do Instituto no qual trabalha desde 1976, acredita que o Iapar já alcançou essa maturidade: ‘‘O Instituto já desenvolveu cerca de 80 cultivares. Só nos últimos seis anos foram lançados 43, ou seja, cerca de 50% de novas cultivares’’.
A falta de flexibilidade para o gerenciamento do Iapar, segundo Paulo Sendin, estaria colaborando para as dificuldades. ‘‘Acredito que deveriam haver alterações no Estado para que as instituições estatais tenham mais flexibilidade para gerenciar de forma competente sem deixar de prestar contas à sociedade’’, analisa. Ele assegura que um sistema mais flexível associado à uma transparência de utilização dos recursos seria mais viável.
O retorno social do Instituto associado à produção agrícola é indiscutível, como explica Florindo Dalberto: ‘‘Fizemos um estudo no ano passado com algodão, milho e trigo e o retorno para a economia paranaense. A produção destas culturas entre 1980 e 1994 gerou uma receita adicional de ICMS para o Estado de 2,87, ou seja, a cada dólar investido neste período a receita teve uma taxa de retorno de investimento relativamente alta. Aqui no Paraná se repete o fenômeno de que a pesquisa é um investimento que traz enorme retorno social’’.
Mas quantificar o benefício social proveniente das pesquisas agrícolas não é tarefa das mais fáceis. ‘‘Existem projetos que dão um retorno imensurável. Como quantificar a diminuição de utilização de veneno nas culturas, por exemplo?’’, questiona Paulo Sendin. Para Luiz Gonzaga Esteves Vieira, pesquisador da área de Fisiologia Vegetal e Biotecnologia e membro de uma comissão de pesquisadores que luta pela reestruturação do Instituto, é complicado atribuir um valor monetário ao retorno da pesquisa científica. ‘‘É difícil medir as consequências sociais, não há ainda um método científico para quantificar isso’’.
Além da pesquisa, Gonzaga ressalta também as atividades de monitoramento tecnológico: ‘‘Nós sabemos aqui o que está acontecendo no mundo. Sabemos que tecnologia indicar para o agricultor. Sem a nossa presença, ele pode comprar gato por lebre, como os índios trocavam preciosidades por quinquilharias trazidas pelos portugueses. E nós ainda estamos lutando para provar que é necessário ter capacidade tecnológica’’.
Metade do orçamentoOs benefícios do Instituto são exemplificados com um estudo de cinco tecnologias que, se fossem implantadas na agricultura do Estado, renderiam um potencial de arrecadação adicional de ICMS de US$ 17,7 milhões anuais, segundo informações de Florindo Dalberto. O valor financeiro do retorno é superior ao orçamento anual do Iapar, calculado atualmente em torno de R$ 15 milhões a R$ 16 milhões.
‘‘Há sete ou oito anos o orçamento oscilava entre R$ 28 milhões a R$ 30 milhões, ou seja, praticamente o dobro’’, revela Sendin. O coordenador explica que cerca de 90% do orçamento do Instituto provém do Estado, 10% a 15% de arrecadações próprias (recursos gerados pelos próprio Instituto) e o restante de outras fontes, como iniciativa privada e governo federal.
A falta de verba gera dificuldades, como a não-reposição de equipamentos obsoletos. ‘‘Grande parte de nossa frota está com mais de 150 mil quilômetros rodados, o que, além da insegurança, gera prejuízo’’, comenta Paulo Sendin. ‘‘Estamos trabalhando com máquinas que já ultrapassaram o período útil’’, emenda Rogério Cardoso.
Além disso, a instituição não contrata novos funcionários desde 1990. ‘‘Não está havendo reposição, se a situação permanecer assim por mais dez ou 15 anos, o Instituto corre o risco de acabar’’, assegura Sendin. O Iapar já teve, entre 1990 e 1993, mais de 1.400 empregados. Hoje o Instituto mantém cerca de 1.100. Florindo Dalberto explica que, no final do ano passado o Iapar perdeu mais 312 pessoas que trabalhavam temporariamente. ‘‘São pessoas de apoio, que trabalham no campo, mas que são essenciais para o processo agrícola.’’
O Iapar possui 18 estações experimentais espalhadas pelo Paraná que também sofrem os reflexos dos problemas. ‘‘Algumas estações estão trabalhando em condições precárias, com pouquíssimos funcionários’’, revela Carlos Armênio Khatounian, pesquisador da área de Fitotecnia há 18 anos.
‘‘Existem áreas descobertas que precisamos trabalhar melhor, nós montamos o Iapar fazendo um levantamento do que era necessário para o Paraná e hoje isso tudo tem que ser repensado’’, observa Nelson Salim Abbud, pesquisador da área de Melhoria de Arroz, no Iapar desde de 1976.
Novo enfoquePara Luiz Gonzaga Vieira o momento é de definição: ‘‘Queremos levantar a discussão com a sociedade para organizar uma nova onda de desenvolvimento e retomar o que o Iapar vinha fazendo’’.
A saída, para Florindo Dalberto, seria buscar uma nova engenharia interna para o Instituto, adaptando-o à nova realidade. ‘‘Precisamos de maior inserção no setor produtivo, com o projeto de cadeias produtivas, maior capacitação de geração de recursos próprios e maior capacidade de adquirir recursos de outras fontes, para trabalharmos com o mínimo de estrutura e o máximo de capacitação técnica.’’
A discussão sobre o futuro do Iapar é extensa, mas há o consenso entre os entrevistados de que, 25 anos após seu surgimento, o Instituto ainda possui potencial para continuar a influir diretamente no desenvolvimento agrícola do Paraná e manter seu papel fundamental na história da pesquisa no Estado.

mockup