ReproduçãoEvasãoIAC: pioneiro na história da pesquisa agrícola no Brasil, hoje perde pesquisadores para as universidadesO mais antigo e importante centro de pesquina agrícola do Brasil, o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), SP, vive uma crise sem precedentes em seus mais de cem anos de história. A modorra que toma conta do imponente edifício de seus escritórios centrais, na avenida Barão de Itapura, hoje uma das áreas mais valorizadas de Campinas, assusta os antigos frequentadores.
Muitas das estufas, construídas em jardins idealizados a partir de modelos imponentes da arquitetura imperial do início do século, estão às moscas. Antes, eram ponto obrigatório de visita dos produtores rurais sintonizados com as últimas novidades da pesquisa agrícola. Ali, eram testados e apresentados os novos cultivares e as tecnologias que tomariam conta dos horizontes agrícolas do País. Mas, agora, os corredores do prédio do IAC, que já viram pincenês, chapéus-côco e bengala, recebem apenas estudantes e pequenos produtores em busca de respostas específicas para seus problemas de campo.
Este quadro melancólico é uma imagem da crise mas não pode ser tomado ao pé da letra. O IAC, primeiro instituto de pesquisa agropecuária do Brasil, foi fundado em 1887. O objetivo imediato era solucionar problemas da lavoura cafeeira, que iniciava seu processo avassalador de expansão. Logo depois de sua fundação foram criados também o Instituto de Zootecnia, em 1905, para atender as necessidades dos pecuaristas; o Instituto Biológico, em 1927, para estudar doenças de animais e plantas e, posteriormente, os institutos de Economia Agrícola, Tecnologia de Alimentos e Pesca, já na segunda metade do século.
Era uma estrutura a serviço do grande produtor rural. Mas toda a história da pesquisa agrícola no Brasil foi montada a partir dela. Dalí saíram os modelos e homens que iniciaram as principais escolas de agronomia e institutos brasileiros de pesquisa agropecuária. Nos últimos 50 anos o IAC gerou nada menos que 300 dos cultivares utilizados pela agricultura brasileira. Praticamente todo o café plantado hoje no País teve sua origem nos campos experimentais do instituto. O mesmo ocorre com o chocolate, o chá, os cereais, o açúcar, as verduras e frutas.
De uma forma ou de outra, a grande maioria das plantas cultivadas em larga escala no Brasil teve seu processo de melhoramento iniciado no IAC. A partir do final dos anos 60 e início dos 70, quando a pesquisa agropecuária começou a atingir a maioria no País, muitos destes trabalhos foram retomadas e adaptados às peculiaridades de diferentes regiões.
A crisePesquisadores do IAC temem que a instituição já esteja às portas de uma nova onda de evasão de cérebros, como a que ocorreu na década de 70. Naquele período, com o boom da pesquisa agrícola, universidades, institutos que se instalavam em outros Estados e a iniciativa privada conseguiram levar um terço dos seus quadros. ‘‘Seções inteiras ficaram paradas vários meses por falta total de pesquisadores’’, afirma Erasmo Paioli Pires, do setor de Viticultura. O IAC, então com pouco mais de 230 pesquisadores, viu seus quadros reduzidos, em menos de dois anos, para pouco mais de 150. ‘‘Os salários altos oferecidos pelas universidades e pela iniciativa privada e melhores condições de pesquisa foram determinantes para que isso ocorresse na época’’, conta. Hoje, os 240 pesquisadores do IAC se encontram diante do mesmo impasse. Seus salários foram drasticamente reduzidos nos dois últimos governos estaduais. ‘‘O governador Fleury, no final de seu mandato, assinou um lei que garantia a revisão salarial do pesquisador a cada dois meses. Só que esta lei nunca foi cumprida por ele e nem pelo governador seguinte, o atual, Mário Covas’’, afirma Edmilson José Ambrosano, do setor de Leguminosas.
O salário dos pesquisadores não só do IAC mas dos 17 institutos de pesquisa do Estado estão completamente defasados em relação ao salário dos professores universitários. O salário de um professor nível 2 da universidade corresponde ao salário de um pesquisador nível 6 dos institutos de pesquisa. A decorrência natural é a evasão. O IAC tem perdido sistematicamente, nos últimos dois anos, quadros para as universidades. Seu departamento de Biologia está com apenas uma pesquisadora.
O mais grave, segundo Paoli, é que um grande contingente de pesquisadores do IAC já se econtra às vésperas da aposentadoria. ‘‘ Quando eles saírem, dificilmente haverá reposição’’, afirma.
Existem 600 projetos de pesquisas em andamento no IAC. Este número, considerado alto, esconde a realidade. Em decorrência da escassez de recursos e falta de novos quadros, grande parte deles caminha a passos lentos. ‘‘A crise do IAC já explodiu. Mas, ainda estamos vendo apenas a ponta do iceberg. Há uma crise latente, muito mais ampla, que precisa ser revertida imediatamente’’, conclui.

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