Fernando Paiva
Eles gostam do frio, são baixinhos e ótimos nadadores. Porém, quando o inverno chega, a corrente marinha das Malvinas ganha força e carrega os mais fracos - geralmente os jovens - para longe de seu hábitat, as regiões subantárticas e o Sul argentino. Às vezes acompanhados de lobos marinhos (Arctocephalus australis), os pinguins de Magalhães ( Spheniscus magellanicus) chegam às praias do Rio Grande do Sul extenuados, famintos e sujos de óleo.
Há 18 anos, pesquisadores, técnicos e professores do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos do Rio Grande do Sul (Ceclimar), com a ajuda da Patrulha Ambiental da Brigada Militar (Patram) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), recolhem os pinguins que chegam entre junho e setembro no trecho da costa Sul compreendido entre Mostardas e Torres. Em média são 50 pinguins por ano. A maioria ainda é filhote e chega tão cansada que mal pode andar. Muitos estão com problemas respiratórios e infecções intestinais. Levados ao Ceclimar, em Imbé, a 130 km de Porto Alegre, eles passam por uma triagem onde são pesados, medicados e em seguida lavados para retirar o óleo acumulado na pele durante a longa jornada.
Reprodução/Revista Ciência HojeOs pinguins são alimentados com sardinha fresca: longe do seu hábitat, eles se recuperam da viagem extenuanteApós essas etapas preliminares, os pinguins são colocados na piscina do minizoológico mantido pelo Centro. Até o fim do inverno eles ficam expostos ao público em um viveiro ao lado do museu de ciências naturais e recebem tratamento especial. A alimentação é à base de sardinha fresca. No começo, a fadiga dos viajantes é tanta que eles precisam ser alimentados pela goela abaixo pois não têm força para engolir. Em pouco tempo, entretanto, eles se acostumam com a nova vida. Em torno de 70% sobrevivem graças aos cuidados dos gaúchos. João Carlos Coimbra, diretor do Ceclimar, lamenta que nenhum pesquisador tenha até hoje se interessado em estudar a biologia dos pinguins recolhidos mas resigna-se: ‘‘O Brasil mal conhece seus próprios animais. Os pinguins vão ter que esperar’’.
Em outubro, após serem anilhados, eles são colocados em um barco cedido pela Petrobrás, no qual passeiam livremente entre os pesquisadores e técnicos, e são levados para mar aberto. A corrente das Malvinas nesta época já está enfraquecida e a força das águas os carrega para o Sul. Mas os pinguins não querem mais retornar para seu verdadeiro lar. Eles tentam em vão nadar de volta para a costa, para a vida boa do Centro, mas a corrente é mais forte. E assim os pinguins de Magalhães rumam para casa.
Texto reproduzido da revista Ciência Hoje, edição de setembro de 1998.Reprodução/Revista Ciência HojePinguins de Magalhães na piscina do Ceclimar: 70 por cento sobrevivem graças aos cuidados que recebemDurante o inverno, a corrente marinha leva pinguins até as praias do Sul do Brasil, onde eles permanecem até outubro quando são devolvidos ao mar

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