Eduardo Castor Borgonovi
Agência Estado
O crescimento desenfreado da população, de um lado, e a escassez de água, de outro, levam os cientistas a renovar o alerta: no próximo século, a falta de água poderá se transformar numa séria fonte de conflitos internacionais. Um relatório divulgado este ano pela Organização das Nações Unidas (ONU) adverte que, caso não haja uma rigorosa revisão dos atuais recursos hídricos, pelo menos dois terços da população sofrerão as consequências da falta de água daqui a cinco anos.
Outro relatório, preparado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), alerta que é preciso colocar um freio nas altas taxas de demanda. O homem consome hoje 35 vezes mais água do que há três séculos. Quase a metade da água (uns 40%) é reciclada, mas a agriculturra absorveu 60% do consumo e a indústria mais 25%.
O aumento da demanda - consequência direta da explosão demográfica que já elevou a 6 bilhões o número de habitantes no mundo - é apenas um componente desse quadro sombrio. Segundo a OMM, os estoques de água do mundo também estão sendo ameaçados seriamente pela contaminação dos recursos hídricos.
O tema foi debatido no ano passado, num encontro promovido em Paris pela ONU, e na ocasião ficou decidida a criação da Academia Internacioal da Água, com o objetivo de levar a todos os países programas de aproveitamento racional dos recursos hídricos. Mas poucos governos adotaram medidas concretas nesse sentido, até agora. A ONU estima que já ocorrem, hoje, conflitos violentos pelo controle da água em cerca de 70 regiões do mundo.
De acordo com um relatório da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM), há muita água no Brasil – 10% dos 8,5 milhões de quilômetros cúbicos da água potável do planeta. Só que ela é mal distribuída (70% dessa reserva está concentrada na Amazônia) e mal aproveitada. E a falta de saneamento básico agrava o problema.
Para fazer uso racional das águas dos lençóis freáticos (perfurações que não esgotem os recursos hídricos e não afetem o meio ambiente), o governo precisa criar uma lei nacional de uso e gestão das águas subterrâneas, que posteriormente deve ser regulamentada em leis estaduais. No entanto, o projeto que trata do tema está há mais de dez anos tramitando nas comissões do Congresso Nacional.
Se grandes cidades providas de modernos sistemas de captação e favorecidas por generosos índices pluviométricos já estão na iminência de enfrentar uma crise de escassez, o que dizer das regiões áridas e semi-áridas, como o Nordeste brasileiro, onde a estiagem atinge mais de mil municípios, levando ao flagelo quase dez milhões de pessoas?

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