Arquivo FolhaO vírus da varíola poderia ser borrifado sobre uma multidão e matar milhares de pessoas. Considerada erradicada desde 1980, a doença não constitui preocupação para o sanitarismo público que deixou de fazer vacinação em massaO terrorista desembarca no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago. Usando uma bomba de aerossol facilmente oculta numa maleta, ele libera a toxina botulina, uma das substâncias mais mortíferas, no saguão lotado do Terminal 2. Sai depressa, antes que alguém perceba, e sem se expor à toxina.
Daí a poucas horas as pessoas começam a ver dobrado e enrolar a língua. Vem a paralisia. Elas já não conseguem respirar sem aparelho inalador. Quando todos os hospitais de Chicago esgotam seu estoque de aparelhos, as mortes multiplicam-se. Passageiros e pilotos que estavam no saguão antes da decolagem agora estão voando há uma hora ou mais. Pilotos entregam os pontos. Aviões caem.
Tal previsão parece um exagero para a maioria dos americanos. Mas pelo menos 16 países e um sem-número de grupos terroristas podem agora produzir armas biológicas. E podem facilmente fazer vítimas com elas não só em campos de batalha, mas em aeroportos, shopping centers e metrôs. Isso não é ficção científica.
A proliferação resulta em parte do esfacelamento da União Soviética. Seus especialistas em guerra biológica estão agora a soldo de qualquer país ou grupo que queira contratá-los. O horror das bombas no World Trade Center e no edifício federal em Oklahoma City se pode fazer acompanhar em breve de ‘‘bombas biológicas’’, como ocorreu com a liberação do mortífero gás sarin em estações do metrô de Tóquio. O problema é saber quando e onde o ataque ocorrerá.
VírusTalvez a ameaça mais assustadora seja uma doença antiga - a varíola. Relatórios da espionagem americana sugerem que o agente da varíola está nas mãos de vários governos, possivelmente até do Iraque. A varíola foi outrora uma das mais temidas doenças epidêmicas, e por bons motivos. Trinta por cento das vítimas de varíola morrem, uma morte lastimável, dolorosa.
No início, os sintomas podem ser confundidos com os de outras doenças comuns, como a catapora. Mas quando a doença evolui os sintomas ficam repelentes. Pústulas em todo o corpo se enrijecem, parecendo que a pele foi picada por abelhas. A varíola hemorrágica rivaliza com as piores infecções pelo vírus Ebola. O sangue escorre da boca, nariz e outros orifícios. Depois que a varíola foi erradicada, em 1980, paramos de vacinar-nos contra ela. Pessoas com menos de 25 anos nunca foram vacinadas, e a imunidade acabou-se há muito nas que um dia receberam a vacina.
Borrifos invisíveis com o vírus da varíola num lugar lotado contaminaria centenas ou milhares de pessoas, mas a doença só se manifestaria a partir de 10 a 14 dias. Nos primeiros dias é improvável que um médico diagnostique a doença. Como o vírus propaga-se pelo ar, familiares, amigos, colegas de trabalho e funcionários da saúde pública ficariam expostos a ele antes que se pudesse tomar medidas para atenuar a transmissão. Aí haveria um segundo surto.
Os casos de varíola sobrecarregariam rapidamente os serviços de assistência médica pública e privada de qualquer cidade ou Estado dos EUA. Teríamos de deixar em quarentena comunidades inteiras, algo que não precisamos fazer há quase um século. A vacinação em massa poderia logo pôr a epidemia sob controle, mas é pequeno o estoque de vacinas que resta: não conseguiríamos imunizar mais de 3% da população americana. Outros países defrontam-se com o mesmo problema.
Precisamos fortalecer nossos fragmentados sistemas públicos de assistência médica e vigilância sanitária para conseguir detectar rapidamente episódios de terrorismo biológico e reagir a eles para impedir a propagação de doenças. Se tivermos sorte, poderemos até estar em melhores condições de tratar os que adoecem. Os acontecimentos desta semana no Iraque não nos devem paralisar. Precisam forçar-nos à ação.
Michael T. Osterholm é chefe da Seção Epidemiológica de Doenças Agudas do Departamento de Saúde de Minnesota (EUA).

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